As Alegres Senhoras de Windsor

William Shakespeare

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Ridendo Castigat Mores

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"Todas as obras so de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigao de retribuir ao menos uma 
gota do que ela me proporcionou."
Nlson Jahr Garcia (1947-2002)

      
AS ALEGRES SENHORAS
DE WINDSOR
(The Merry Wives of Windsor)
William Shakespeare

      
NDICE
      
ATO I
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV

ATO II
Cena I
Cena II
Cena III

ATO III
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V

ATO IV
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
Cena VI

ATO V
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V

      
Personagens
      
SIR JOHN FALSTAFF
FENTON, jovem gentil-homem
SHALLOW, juiz de paz
SLENDER, primo de Shallow
FORD, gentil-homem de Windsor
PAGE, gentil-homem de Windsor
GUILHERME, menino, filho de Page
O reverendo HUGO EVANS, sacerdote galense
Doutor CAIUS, mdico francs
O Hospedeiro da estalagem da Jarreteira
BARDOLFO, homem de Falstaff
PISTOLA, homem de Falstaff
NYM, homem de Falstaff
ROBIM, pajem de Falstaff
SIMPLES, criado de Slender.
RUGBY, criado do doutor Caius.
A SENHORA FORD
A SENHORA PAGE
ANA PAGE, sua filha, apaixonada de Fenton
A SENHORA QUICKLY, criada do Dr. Caius
Criados de Page, Ford, etc.

      
ATO I
Cena I
      
Windsor. Em frente  casa de Page. Entram o juiz Shallow, Slender e o Reverendo Hugo Evans.
      
     SHALLOW - No, reverendo Hugo; no procureis dissuadir-me; levarei a questo ao Tribunal da Estrela. Ainda que ele fosse vinte vezes sir John Falstaff, no 
zombaria de Roberto Shallow, escudeiro.
     SLENDER - Do condado de Gloster, juiz de paz e coram.
     SHALLOW - Sim, primo Slender, e cust-alorum.
     SLENDER - Sim, e rato-lorum, reverendo, e gentil-homem de nascimento, que se assina armgero em toda nota, mandado, quitao ou obrigao. Armgero!
     SHALLOW - Perfeitamente;  o que fao e o que sempre tenho feito nestes trezentos anos.
     SLENDER - E a mesma coisa faro todos os descendentes que o precederam e todos os antepassados que nascerem depois dele; podero usar no escudo de armas uma 
dzia de lcios e de piorras brancas.
     SHALLOW -  um escudo muito antigo.
     EVANS - Uma dzia de piorros ir muito bem num escudo antigo.  de grande efeito, en passant. O piorro  um animal familiar do homem, e significa amor.
     SHALLOW - O lcio  peixe fresco; mas o do escudo  salgado.
     SLENDER - E eu, primo, poderei esquartelar o escudo?
     SHALLOW - Sim, com o casamento.
     EVANS - Seria pena se o escudo ficasse esquartejado.
     SHALLOW - No; isso no se dar.
     EVANS - Sim, por Nossa Senhora. Se ele tirar um quarto de vosso escudo, s ficareis com trs quartos, na minha modesta opinio. Mas d no mesmo. Se sir John 
Falstaff vos fez alguma ofensidade eu, como homem da Igreja, ficarrei satisfeito se puder exercer minha benevolncia para promover a regonciliao e o gompromisso 
entre vs.
     SHALLOW - A Corte de Justia ir tomar conhecimento do caso.  um desordeiro.
     EVANS - No  gonveniente que a Gorte de Xustia oua falar de desordens. A Gorte de Xustia, ora vde, gosta de ouvir falar do temor de Deus; no de desordens; 
dou-vos esse avisamento.
     SHALLOW - Ah! Por minha vida! Se eu pudesse remoar, a espada decidiria a questo.
     EVANS - Ser melhor que os amigos sejam a espada, para decidirem a guesto. Tenho outro plano na gabea, que se der resultados, produzir grandes gonvenincias: 
estou bensando em Ana Page, a filha do mestre Jorge Page, que  uma pla firgindade.
     SLENDER - A menina Ana Page! Tem cabelos escuros e fala com uma vozinha de senhora.
     EVANS -  xustamente a melhor griatura do mundo inteiro que podereis desejar.  dona de setecentas libras em dinheiro, ouro e prata que lhe deixou o av no 
leito de morte - que Deus lhe d uma poa ressurreio! - para quando ela se tornar gapaz de completar dezessete anos. Bor isso seria um conselho barar com nossas 
disgussezinhas e arranjar o casamento de mestre Abrao com a senhorita Ana Page.
     SHALLOW - Como! O av dela deixou-lhe setecentas libras?
     EVANS - Sim, e o bai vai deixar-lhe um beclio ainda maior.
     SHALLOW - Conheo essa pessoa; tem muitas qualidades.
     EVANS - Setecentos libras e outras bersbectivas so poas qualidades.
     SHALLOW - Ento vamos  casa do honesto mestre Page. Falstaff estar l?
     EVANS - Ento eu iria mentir? Desbrezo um mentiroso, como desbrezo o hibcrita ou a bessoa que no diz a verdade. O cavaleiro, sir John, est l, com certeza. 
Mas beo-vos ouvir quem vos deseja o pem. Vou pater na porta de mestre Page. (Bate.) Ol! Deus apenoe esta casa aqui!
     PAGE (dentro) - Quem bate?
     EVANS - Aqui est a penedio de Deus e vosso amigo e o juiz Shallow; e aqui est o jovem mestre Slender, que porventura vos contar uma outra histria, se 
o assunto no vos desagradar.
     (Entra Page.)
     PAGE - Fico contente por ver que Vossas Senhorias esto bem. Muito obrigado, mestre Shallow, pela caa que me mandastes.
     SHALLOW - Mestre Page, alegra-me ver-vos; que vos faa muito bem ao corao bondoso. Desejara ter mandado melhor caa; foi mal atirada. - Como vai passando 
a bondosa senhora Page? - De todo corao me declaro vosso devedor, sim, para sempre.
     PAGE - Agradeo-vos, senhor.
     SHALLOW - Agradeo-vos, senhor; quer concordeis, ou no, muito obrigado.
     PAGE - Folgo em ver-vos, bom mestre Slender.
     SLENDER - Como est o vosso galgo fulvo, senhor? Ouvi dizer que ele foi vencido na corrida de Cotsale.
     PAGE - No ficou decidido, senhor.
     SLENDER - No quereis confessar! No quereis confessar!
     SHALLOW - No h de confessar, decerto. A falta  vossa! A falta  vossa!  um bom cachorro.
     PAGE -  um mastim, senhor.
     SHALLOW - Senhor,  um bom cachorro; um belo cachorro. Pode-se dizer mais? Bom e bonito. - Sir John Falstaff est aqui?
     PAGE - Est l dentro, senhor. Eu ficaria satisfeito se pudesse promover a reconciliao entre vs.
     EVANS - Isso  fala de muito pom cristo.
     SHALLOW - Ele me ofendeu, mestre Page.
     PAGE - De algum modo, senhor, pois ele reconheceu a prpria culpa.
     SHALLOW - Reconheceu a culpa, mas quem agentou com as conseqncias fui eu, no  assim, mestre Page? Ofendeu-me; sim, ofendeu-me; palavra de honra, foi o 
que fez, podeis acreditar-me. Roberto Shallow, escudeiro, declara-se ofendido.
     PAGE - A vem vindo sir John.
     (Entram Sir John Falstaff, Bardolfo, Nym e Pistola)
     FALSTAFF - Ento, mestre Shallow, tencionais apresentar ao rei queixa contra mim?
     SHALLOW - Espancastes meus homens, cavaleiro; mataste um veado de minha propriedade e forastes o pavilho.
     FALSTAFF - Mas no beijei a filha do vosso couteiro?
     SHALLOW - Ora, coisa nenhuma! Tereis de responder por isso tudo.
     FALSTAFF - Neste momento; responderei por tudo isso que dizeis. Pronto; est respondido.
     SHALLOW - O Conselho ir ficar sabendo o que se deu.
     FALSTAFF - Seria mais prudente ouvirdes um conselho, para que no riam de vs no Conselho.
     EVANS - Pauca verba, sir John, e balavras menos ferdes.
     FALSTAFF - Nem verde nem verdura! Slender, quebrei-vos a cabea. Que pretendeis fazer contra mim?
     SLENDER - Com a breca, senhor! Tenho na cabea muita coisa Contra vs e contra o vosso terno de trapaceiros, Bardolfo, Nym e Pistola. Levaram-me para a taberna, 
embebedaram-me e depois me esvaziaram os bolsos.
     BARDOLFO - Era s casca de queijo.
     SLENDER - Pouco importa.
     PISTOLA - Ento, Mefistfilo?
     SLENDER - Pouco importa.
     NYM - Acabemos com isso, digo! Pauca, pauca! Acabemos com isso!  o meu humor.
     SLENDER - Por onde anda o meu criado Simples, no sabereis dizer-mo, primo?
     EVANS - Baz, baz, por obsquio. Faam as bazes. H trs rpitros neste negcio, de acordo com a minha gombreenso: mestre Page, fidelicetmestre Page, eu mesmo, 
fidelicet eu mesmo, e a terceira barte, por ltimo e finalmente, o nosso estalaxadeiro da Xarreteira.
     PAGE - A ns trs  que compete ouvir a questo e resolv-la.
     EVANS - Berfeitamente; vou tomar nota disso no meu livro; depois trapalharemos na causa com a disgrio de que formos cabazes.
     FALSTAFF - Pistola!
     PISTOLA - Ele ouve com as orelhas.
     EVANS - O tiabo e sua me! Que frase  essa: "Ele ouve com as orelhas?" Isso  afetao.
     FALSTAFF - Pistola, bateste a carteira de mestre Slender?
     SLENDER - Bateu, por estas luvas! Se no estou falando a verdade, no quero nunca mais voltar a entrar no meu quarto grande. Continha sete pences em moeda antiga 
e dois xelins de jogo com a efgie de Eduardo, que eu comprara do moleiro Yead  razo de dois xelins e dois dinheiros cada um; por estas luvas!
     FALSTAFF -  verdade o que ele est dizendo, Pistola?
     EVANS - Non;  falso, se ele for um patedor de garteiras.
     PISTOLA - Morador das montanhas! Estrangeiro! Sir John e meu patro! Com esta espada lano o meu desafio, e nesses lbios atiro o desmentido! Um desmentido! 
Pela escuma do mar,  tudo falso!
     SLENDER - Por estas luvas, ento foi aquele ali.
     NYM - Tende mais cautela, senhor e deixai dessas brincadeiras. Preparar-vos-ei uma armadilha, se virardes contra mim o vosso humor de quebra-nozes. Eis a nota 
da questo.
     SLENDER - Por este chapu, ento foi aquele ali, de cara vermelha. Por que embora eu no me lembre de tudo o que fiz, quando me deixastes bbedo, no sou um 
asno completo.
     FALSTAFF - Que dizeis a isso, Joo Escarlate?
     BARDOLFO - Ora, senhor, pela minha parte digo apenas que o cavalheiro se embriagou at perder as cinco sentenas.
     EVANS - Xinco xentidos,  o que quereis dizer. Quanta ignorncia!
     BARDOLFO - E estando chupado, senhor, achava-se, como se diz, com a caixa leve ultrapassando, portanto, suas concluses a meta.
     SLENDER - isso; na hora tambm falastes latim. Mas pouco importa. Enquanto viver, nunca mais hei de me embriagar, por me ter acontecido isso, salvo se for em 
companhia de gente honesta, civil e piedosa. Se tiver de embriagar-me, ser com pessoas que revelem temor de Deus, no com velhacos bbedos.
     EVANS -  uma dexiso virtuosa, assim bossa Deus julgar-me.
     FALSTAFF - Senhores, ouvistes bem como tudo foi contestado; ouviste perfeitamente.
     (Entram Ana Page, com vinho, a senhora Ford e a senhora Page.)
     PAGE - No, filha; leva o vinho para trs; beberemos l dentro.
     (Sai Ana Page.)
     SLENDER - Oh Cus!  a menina Ana Page!
     PAGE - Ento, senhora Ford?
     FALSTAFF - Senhora Ford, por minha f, chegais em boa hora. Com vossa permisso, bondosa senhora. (Beija-a.)
     PAGE - Mulher, d as boas-vindas a estes cavalheiros. Vamos; para o jantar temos um pastel quente de caa. Vamos, cavalheiros; espero que afoguemos no copo 
os aborrecimentos.
     (Saem todos, com exceo de Shallow, Slender e Evans.)
     SLENDER - Daria quarenta xelins para ter agora o meu livro de cantigas e sonetos. (Entra Simples.) Ento, Simples? Por onde tendes andado? Ser preciso que 
eu mesmo me sirva, no? No tendes por acaso o meu livro de charadas?
     SIMPLES - O livro de charadas? Ento no o emprestastes a Alice Shortcake no dia de Todos os Santos, uma quinzena antes de So Miguel?
     SHALLOW - Vamos, primo; vamos, primo. Ns vos serviremos. Uma palavra, primo; uma palavrinha. Houve, por assim dizer, uma proposio, uma espcie de proposio 
assim por alto, da parte do nosso reverendo Hugo. Compreendeis-me?
     SLENDER - Perfeitamente, senhor. Haveis de encontrar-me razovel. Se tal se der, farei o que aconselhar a razo.
     SHALLOW - Sim, mas compreendeis o que quero dizer?
     SLENDER - Compreendi, senhor.
     EVANS - Prestai ouvido  sua moo, mestre Slender, que eu vos farei a disgrio da coisa, se tiverdes gapacidade para entend-la.
     SLENDER - Farei o que disse o primo Shallow; perdoai-me, mas ele  juiz de paz do distrito em que mora, conquanto eu seja pessoa to humilde no meu.
     EVANS - Mas a guesto  outra, mestre Slender, relativa ao vosso gasamento.
     SHALLOW - Sim,  esse o ponto, senhor.
     EVANS - E isso!  isso! o ponto verdadeiro, com a senhorita Ana Page.
     SLENDER - Bem, se  assim, despos-la-ei sob qualquer condio razovel.
     EVANS - Mas sentis por ela alguma afetaom? Querremos saber isso da vossa prpria poca, ou de vossos lbios, porque h filsofos que afirmam serem os lbios 
uma parcela da poca. Por isso, precisamente, podeis lanar vossa inclinaom para o lado dessa senhorita.
     SHALLOW - Primo Abrao Slender, sois capaz de am-la?
     SLENDER - Espero que sim, senhor; hei de am-la como convm a uma pessoa razovel.
     EVANS - Pelos santos e pelas santas de Deus! Dizei com bositividade se podeis lanar vossos desejos para o lado dela.
     SHALLOW -  isso que deveis fazer. Trazendo ela um bom dote, estareis disposto a despos-la?
     SLENDER - Partindo de vs a proposta, primo, farei muito mais do que isso, com qualquer razo.
     SHALLOW - No; compreendei-me, compreendei-me, querido primo. Tudo o que fao, primo,  visando o vosso bem. Podeis amar a rapariga?
     SLENDER - Despos-la-ei, senhor, se assim o determinardes. Se no comeo no houver grande amor, o cu poder faz-lo diminuir, quando se formar conhecimento 
mais ntimo, depois de estarmos casados e de termos outras oportunidades de ficarmos nos conhecendo. Espero que com a intimidade aumente a antipatia. Mas se me disserdes: 
"Casai com ela!" casarei, e pronto. Estou dissolvido e dissoluto a fizer isso.
     EVANS - Resposta de blena disgrio, tirante o erro da balavra "dissoluto." Segundo o nosso bensamento, a balavra deveria ser "resoluto." Sua intenom  poa.
     SHALLOW - Sim, estou certo de que o primo tem boa inteno.
     SLENDER - Se no tivesse, quisera que me enforcassem.
     SHALLOW - A vem vindo a bela senhorita Ana. (Volta Ana Page.) Senhorita Ana, s por amor de vs, quisera ficar moo outra vez.
     ANA - O jantar est na mesa; meu pai deseja a presena de Vossas Honras.
     SHALLOW - Estou s suas ordens, bela senhorita Ana.
     EVANS - Que Deus seja louvado. No podeis faltar  pno.
     (Saem Shallow e Evans.)
     ANA - Vossa Senhoria no se dignar, tambm, de entrar?
     SLENDER - No, muito obrigado, em verdade, de todo o corao. Estou passando muito bem.
     ANA - O jantar vos espera, senhor.
     SLENDER - No estou com fome; muito obrigado, em verdade. - Maroto, vai logo; embora sejas meu criado, vai servir ao primo Shallow. (Sai Simples.) s vezes, 
um juiz de paz poder ficar agradecido a um amigo que lhe empreste seu criado. At  morte de minha me s terei a meu servio trs criados e um pajem. Mas que importa? 
Por enquanto, vivo como fidalgo pobre.
     ANA - No poderei voltar sem levar Vossa Senhoria; os outros no se assentaro  mesa, enquanto no chegardes.
     SLENDER - Por minha f, no comerei nada; agradeo-vos como se tivesse comido.
     ANA - Entrai, senhor, por obsquio.
     SLENDER - Muito obrigado; preciso passear um pouco aqui fora. H dias quebrei a canela numa luta de espada e adaga com um professor de esgrima; trs assaltos 
por um prato de ameixas ao forno. Por minha honra, desde esse dia no suporto o cheiro de comida quente. Por que ladram tanto vossos ces? Haver ursos na cidade?
     ANA - Creio que sim, senhor; ouvi falar que h.
     SLENDER - Gosto muito de briga de ursos; mas ferro logo uma discusso, como no h outro na Inglaterra. Ficais com medo, quando vedes um urso solto, pois no?
     ANA - Realmente, senhor.
     SLENDER - Para mim, isso, hoje,  como comer e beber. J vi Sackerson solto mais de vinte vezes e o segurei pela corrente. Mas, posso afianar-vos: as mulheres 
gritavam e choravam, que no  possvel descrever. s mulheres, de fato, no suportam esse espetculo; so animais muito ferozes.
     (Volta Page.)
     PAGE - Vinde, gentil mestre Slender; vinde; estamos  vossa espera.
     SLENDER - No quero comer nada, senhor; muito obrigado.
     PAGE - Pelo galo e pela pega, senhor, no podeis recusar. Vinde! Vinde!
     SLENDER - Ento, por obsquio, ide na frente.
     PAGE - Entrai, senhor.
     SLENDER - Senhorita Ana, passai na frente.
     ANA - Eu no, senhor; entrai, por obsquio.
     SLENDER - Em verdade, no serei o primeiro. Em verdade, pronto! No vos farei semelhante ofensa.
     ANA - Por obsquio, senhor.
     SLENDER - Prefiro ser descorts a ser importuno. Se houver ofensa,  vossa; pronto!
     (Saem.)

      
Cena II
      
O mesmo. Entram o Reverendo Hugo Evans e Simples.
      
     EVANS - Segui vosso gaminho e fizer perguntaom da casa do doutor Caius, que fica no gaminho. Mora l uma senhora Quickly, que  uma esbcie de ama dele, ou 
gofernante, ou gozinheira, ou lafadeira, ou engomadeira, ou torcedora de roupa.
     SIMPLES - Perfeitamente, senhor.
     EVANS - No; ser melhor entregar-lhe esta carta, porque ela  bessoa de relacionamento antigo com a senhorita Ana Page. A carta  para pedir e requerer que 
ela ampare as bretenses de vosso amo xunto da senhorita Ana Page. Barti logo, por opsquio; eu vou acabar de xantar; ainda vai haver bibino e queixo.
     (Saem.)

      
Cena III
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram Falstaff, o Estalajadeiro, Bardolfo, Nym, Pistola e Robim.
      
     FALSTAFF - Meu estalajadeiro da Jarreteira!
     ESTALAJADEIRO - Que diz o meu alegre companheiro? Falai com erudio e sabedoria.
     FALSTAFF - Em verdade, meu estalajadeiro, estou precisando despedir alguns dos meus homens.
     ESTALAJADEIRO - Despedi o valente Hrcules. Mandai-o embora. Que se mexa. Toca! Toca!
     FALSTAFF - Preciso de dez libras por semana.
     ESTALAJADEIRO - s um imperador, csar, kaiser e zango. Ficarei com Bardolfo; dar-lhe-ei a incumbncia de ir buscar vinho e p-lo no barril. No falei bem, 
meu valente Heitor?
     FALSTAFF - Fazei isso mesmo, bondoso estalajadeiro.
     ESTALAJADEIRO - J o disse. Agora, ele que me siga. (A Bardolfo.) Quero ver se sabes fazer espumar a cerveja e deixar o vinho colante. Sou homem de uma s palavra. 
Acompanha-me!
     FALSTAFF - Vai com ele, Bardolfo; a profisso de moo de taberna  muito boa. De uma capa velha faz-se um casaco novo e de um criado murcho um moo de taberna 
louo. Vai. Adeus.
     BARDOLFO -  profisso com que sempre eu sonhara. Hei de me dar muito bem nela.
     PISTOLA - Baixo hungars, coisa -toa! Pretendes pegar no batoque?
     (Sai Bardolfo.)
     NYM - Ele foi concebido no vinho. No valeu o humor da brincadeira?
     FALSTAFF - Alegra-me ficar livre dessa caixa de fuzil. Seus roubos estavam dando muito na vista; furtava como os cantores desajeitados: sempre fora de tempo.
     NYM - O verdadeiro humor da coisa consiste em furtar numa pausa mnima.
     PISTOLA - A isso do os sbios o nome de apropriar-se. "Roubar", ora! Uma figa para a expresso.
     FALSTAFF - Pois , senhores; estou ficando com os calcanhares de fora.
     PISTOLA - Ento, cuidado com as frieiras.
     FALSTAFF - No h outro remdio: terei de fintar algum, preciso recorrer a expedientes.
     PISTOLA - Corvo novo necessita de alimento.
     FALSTAFF - Qual de vs conhece um certo Ford, aqui da cidade?
     PISTOLA - Conheo o tipo;  de boa substncia.
     FALSTAFF - Meus honestos rapazes, vou revelar-vos aqui em particular quais so as minhas medidas.
     PISTOLA - Para mais de duas jardas.
     FALSTAFF - Deixa de trocadilhos, Pistola!  verdade que tenho uma cintura de duas jardas; mas neste momento no importa meu cinto, mas o que sinto. Em resumo, 
rapazes, tenho em mente fazer a corte  mulher do Ford. Estou certo de que hei de divertir-me bastante: conversa bem,  afvel, sabe convidar a gente com o rabo 
do olho. Interpreto perfeitamente o seu estilo familiar. Mas o mais renitente trecho de sua conduta poder ser traduzido da seguinte maneira: "Chamo-me sir John 
Falstaff!"
     PISTOLA - V-se que ele a estudou a fundo, traduzindo-a muito bem da honestidade para o ingls.
     NYM - A ncora bateu no fundo; permitis-me a brincadeira?
     FALSTAFF - Segundo os boatos que correm por a,  ela quem dirige a bolsa do marido, sendo certo que ele possui um regimento de anjos.
     PISTOLA - Nmero igual de demnios apresta, e "Avanar!" aconselho.
     NYM - O humor est subindo. Muito bem. Esses anjos me deixam bem humorado.
     FALSTAFF - Tenho aqui comigo uma carta que escrevi para mandar-lhe, e uma outra para a mulher de Page, que, faz pouco tempo, me lanou olhares animadores e 
examinou o meu fsico com miradas judiciosas, ora dourando-me os ps com os raios dos olhos, ora o ventre avantajado.
     PISTOLA - O sol a iluminar o monturo.
     NYM - Felicito-te pela piada.
     FALSTAFF - Percorreu minhas formas exteriores com to vida curiosidade, que o apetite de seus olhos parecia queimar-me como um espelho ustrio. Esta carta 
aqui  para lhe ser entregue.  ela, tambm, quem dirige a bolsa do casal;  um trecho da Guiana, rica em ouro e liberalidades. Passarei a ser o coletor de ambas, 
e elas o meu tesouro, as minhas ndias orientais e ocidentais, comerciando eu pelos dois lados. Leva esta carta para a senhora Page, e tu, esta outra para a senhora 
Ford. Vamos ficar ricos, rapazes! Vamos ficar ricos!
     PISTOLA - Eu, virar Pndaro de Tria, tendo na cintura esta espada? Melhor fora, Lcifer, que levsseis a ns todos.
     NYM - No representarei um humor desprezvel. Retomai vossa carta humoresca; pretendo conservar intacta minha reputao.
     FALSTAFF (a Robim) - Leva esta carta,  coisa, bem depressa! Veleja como a minha caravela, no rumo  Costa do ouro. E vs, velhacos, fora daqui! Sumi como saraiva! 
Arrastai-vos a p, buscai abrigo, que Falstaff e seu pajem,  francesa, sero homens do sculo,  certeza.
     (Saem Falstaff e Robim.)
     PISTOLA - Rasguem-te os intestinos os abutres. Dados falsos ainda h, dados com chumbo, lanos altos e baixos, para pobres e ricos enganar. Hei de no bolso 
ter sempre moedas, quando j estiveres sem vintm, baixo frgio da Turquia!
     NYM - Trago algumas operaes na cabea, que so o humor da vingana.
     PISTOLA - Queres vingar-te?
     NYM - Pelo cu e os astros.
     PISTOLA - Com esprito, ou ao?
     NYM - Os dois humores. Ao pajem vou contar o humor da carta.
     PISTOLA - E a Ford eu prprio revelo que Falstaff, tipo -toa, quer arrombar-lhe o castelo e surripiar-lhe a garoa.
     NYM - Meu humor no arrefecer; vou concitar Page a pensar em veneno; deix-lo-ei enciumado ao ltimo ponto, porque a exploso da mina seja perigosa: eis o 
verdadeiro humor do caso.
     PISTOLA - s o Marte dos descontentes. Estou contigo. Marcha!
     (Saem.)

      
Cena IV
      
Um quarto em casa do doutor Caius. Entram a senhora Quickly e Simples.
      
     QUICKLY - Ol, John Rugby! (Entra Rugby) Por obsquio, vai  janela e v se o meu amo j vem, o mestre doutor Caius. Se ele encontrar aqui algum de fora, far 
um mau uso da pacincia de Deus e do ingls do rei.
     RUGBY - Vou espiar.
     QUICKLY - Vai, que  noite beberemos alguma coisa, posso assegurar-te, quando estiver para se extinguir a chama do carvo. (Sai Rugby.)  um criado honesto, 
servial, atencioso, como no se encontra outro em nenhuma casa, e, posso asseverar-vos, no vive contando novidades nem procurando mexericos. Seu pior defeito  
gostar muito de rezar; a esse respeito,  um pouco teimoso; mas todos ns temos os nossos defeitos. Que reze! Vosso nome  Pedro Simples, no foi isso que dissestes?
     SIMPLES - Sim, senhora; em falta de outro melhor.
     QUICKLY - E vosso patro  mestre Slender?
     SIMPLES - Sim, por minha f.
     QUICKLY - No  aquele senhor que usa uma barba grande e redonda, parecida com trinchete de luveiro?
     SIMPLES - No, por minha f; tem uma carinha de penugem, com uma barbicha amarela, uma barba da cor de canela.
     QUICKLY - E  homem de gnio calmo, no  verdade?
     SIMPLES - Sim, por minha f; mas  pessoa de punhos decididos como qualquer outra entre esta cabea e a dele; j brigou com um couteiro.
     QUICKLY - Que me dizeis! Ah, sim! Agora me recordo de sua figura. No anda, por assim dizer, de cabea alta e um tanto empertigado?
     SIMPLES - Perfeitamente; isso mesmo.
     QUICKLY - Que o cu no contemple Ana Page com pior sorte. Dizei ao reverendo Evans que farei o que for possvel a favor de vosso amo. Ana  uma boa rapariga 
e eu s desejo...
     (Volta Rugby.)
     RUGBY - Debandai, que a vem vindo o patro!
     QUICKLY - Ir passar-nos uma sarabanda. Entrai aqui, bom moo; passai para este compartimento. (Fecha Simples no quarto anexo.) Decerto no vai demorar. - Ol, 
John Rugby! Joo! Estou chamando! Joo! Vai saber o que houve com o patro; receio que lhe tenha acontecido alguma coisa. At agora no voltou para casa. (Sai Rugby.) 
(Canta.) Em baixo, l! Em baixo, l!
     (Entra o doutor Caius.)
     CAIUS - Que canon  essa? No gosto dessas brincadeirras. Por obsquio, ide buscar no meu quarto une boitine vert, uma caixa, uma caixa verde. Entendez-vous 
ce que je dis?
     QUICKLY - decerto que entendo. Vou j. ( parte.) Por sorte ele mesmo no foi busc-la. Ficaria fulo de raiva, se encontrasse l dentro o rapaz.
     CAIUS - Fe,fe,fe,fe! Ma foi, il fait fort chaud. Je m'en vais  la cour... la grande affaire.
     QUICKLY -  esta, senhor?
     CAIUS - Oui; mettez le no meu bolse; depechez! Depresse! Onde est esse velhaque Rugby?
     QUICKLY - Ol, John Rugby! John!
     (Volta Rugby.)
     RUGBY - Aqui, senhor.
     CAIUS - Sois John Rugby e sois Jack Rugby. Apanhai vossa espada, para irmos  la cour,  corte.
     RUGBY - Tenho-a  mo, senhor, aqui mesmo no vestbulo.
     CAIUS - Por minha f, estou demorando muito. Mortdieu! Qu'ay j'oubli? No meu gabinete h um simples, que no desejo deixar l por nada de ce monde.
     QUICKLY ( parte) - Ai de mim! Vai ficar fulo de raiva, quando der com o rapaz l dentro.
     CAIUS -  diable! diable! Quem est em meu gabinete? Villain! Larron! (Empurrando Simples para fora.) Rugby minha espada!
     QUICKLY - Ficai calmo, meu bom amo.
     CAIUS - E pourquoi terrei de ficar calme, eh?
     QUICKLY - Esse rapaz  um moo honesto.
     CAIUS - E que pode querer um moo honeste no meu gabinete? Moo honeste non entra no meu gabinete.
     QUICKLY - Por favor, no fiqueis to fleumtico. A verdade do caso  que ele me trouxe uma incumbncia da parte do reverendo Evans.
     CAIUS - C'est bien.
     SIMPLES - Realmente, para pedir-lhe que...
     QUICKLY - Ficai quieto, por obsquio.
     CAIUS - Vtre langue  que deve ficar quiete! Et vous, ai, continuai com vossa histria.
     SIMPLES - ... para pedir a esta honesta senhora, vossa empregada, que dissesse uma palavrinha  senhorita Ana Page a favor do meu amo, no sentido de casamento.
     QUICKLY - Foi isso, nada mais; pronto! Mas eu  que no meto o dedo no fogo. No tenho necessidade disso.
     CAIUS - Foi o reverendo Hugo que vos mandou com esse recado? Rugby, baillez-moi papel! Esperrai um pouco. (Escreve.)
     QUICKLY - Fico satisfeito por v-lo assim to calmo; se houvesse ficado colrico, tereis ouvido seus gritos e sua melancolia. Mas, apesar de tudo, homem, farei 
o que puder por vosso amo; e o verdadeiro sim e no da questo  que o doutor francs, meu amo - posso dar-lhe esse nome porque, vede bem, sou eu que tomo conta 
de sua casa, lavo, toro, esfrego, preparo cerveja, po, cuido da limpeza geral, da comida e da bebida, arrumo a cama, fao tudo sozinha...
     SIMPLES - Carga pesada!
     QUICKLY - Ah! Percebeste isso? Realmente, uma carga pesada! Levantar cedo e deitar tarde. Mas apesar de tudo - digo-vos isso aqui entre ns, porque no gosto 
de mexericos - meu amo tambm est apaixonado da senhorita Ana Page. Mas apesar de tudo, conheo o gnio de Ana; no pende para nenhum dos lados.
     CAIUS - Ol, macaque! Entrega esta carta ao reverendo Hugo. Pardieu!  um desafio. Hei de cortar-lhe o pescoo no parque. Quero ensinar a esse padre miservel, 
a esse mono, a no meter o bedelho onde no  da conta dele. Podeis ir emborra; no fica bem demorardes aqui mais tempo.Pardieu! Vou arrancar-lhe as pedras; ficarr 
sem nenhuma pedra para atirar aos ces.
     (Sai Simples.)
     QUICKLY - Oh cus! Ele falou apenas em nome do amigo.
     CAIUS - A queston  outra. No me tnheis dito que eu irria ficar com Ana Page, hein? Pardieu, vou matar esse badameco de padre; pedi ao estalajadeiro da Jarreteira 
que medisse nossas armas. Pardieu, eu  que vou ficar com Ana Page.
     QUICKLY - A senhorita vos dedica muito amor; tudo ainda h de acabar bem. Mas  preciso deixar que os Outros falem tambm, ora essa!
     CAIUS - Rugby, vamos  corte. Pardieu! Se eu no ficar com Ana Page, atiro-vos de cabea por essa janela. Segue-me nos calcanhares, Rugby.
     (Saem Caius e Rugby.)
     QUICKLY - Haveis de ver Ana mas  por um culo! No; conheo o pensamento de Ana; no h em Windsor mulher alguma que conhea o pensamento de Ana como eu, nem 
que tenha maior influncia sobre ela, graas a Deus.
     FENTON (dentro) - H algum em casa? Eh!
     QUICKLY - Quem est ai? Vinde para perto da porta, por obsquio.
     (Entra Fenton.)
     FENTON - Ento, boa mulher, como vais passando?
     QUICKLY - Tanto melhor, por haver Vossa Senhoria procurado saber do meu estado.
     FENTON - Quais so as novidades? Como vai passando a bela senhorita Ana?
     QUICKLY - Com efeito, senhor, ela  bela, honesta e gentil, posso asseverar-vos de passagem. Quanto a isso, levanto as mos para o cu.
     FENTON - Acreditais que eu conseguirei o intento? No serei recusado?
     QUICKLY - Em verdade, senhor, tudo est nas mos do Altssimo. Todavia, mestre Fenton, poderia jurar sobre o livro em como ela vos ama. Vossa Senhoria no tem 
uma verruga em cima dos olhos?
     FENTON - Tenho, com a breca! Mas a que vem isso?
     QUICKLY - Ah! E uma histria muito comprida. Por minha f, a Aninha  nica! Mas honesta como ela, nunca houve rapariga que cortasse po,  o que eu protesto. 
Conversamos durante duas horas a respeito dessa verruga. Nunca rio tanto como quando me acho na companhia dessa rapariga, que , realmente, muito dada  alicolia 
e  contemplao. Mas com relao a vossa pessoa... continuai sem desnimo.
     FENTON - Muito bem; vou v-la hoje  noite. Fica com esta lembrana da minha parte e dize-lhe uma palavrinha a meu favor. Se a vires antes de mim, recomenda-me.
     QUICKLY - Recomendar-vos?  o que farei, sem dvida alguma. E, quando tivermos outra confidncia, voltarei a falar a Vossa Senhoria a respeito da verruga e 
dos outros pretendentes.
     FENTON - Muito bem. Adeus. Estou com pressa.
     QUICKLY - Passe bem Vossa Senhoria. (Sai Fenton.) , realmente, um rapaz honesto; Ana, porm, no lhe dedica amor. Conheo o pensamento de Ana to bem como 
qualquer pessoa. Mas, com a breca! De que foi que eu me esqueci? (Sai.)

      
ATO II
Cena I
      
Defronte da casa de Page. Entra a senhora Page com uma carta.
      
     SENHORA PAGE - Como! Das cartas amorosas escapei no bom tempo de minha beleza, para tornar-me agora assunto delas? Vejamos: "No me pergunteis o motivo de vos 
amar, porque embora o amor empregue a razo como seu mdico, no a admite como conselheira. J no sois jovem, como eu tambm no o sou; tendes gnio alegre, tal 
como eu, ah! ah! Para que maior simpatia? Gostais de xerez tanto quanto eu. Podereis desejar maior afinidade? Em resumo, senhora Page, basta saberes - se o amor 
de um soldado te for suficiente - que te amo. No direi que te apiades de mim, por no ser soldadesca semelhante frase. Direi apenas: ama-me! Do teu cavaleiro que 
ao claro luzeiro do sol ou candeeiro por ti, prazenteiro, saudara o coveiro, lutando primeiro com o mundo inteiro. John Falstaff." Que Herodes da Judia ser este? 
Oh mundo perverso! perverso! Um sujeito quase de todo rodo pela idade, e que se comporta como um moo conquistador! em nome do diabo, que gesto refletido de minha 
parte poder ter surpreendido esse bbedo flamengo em minhas conversaes, para ousar assaltar-me por esse modo? Como! No chegou a conversar comigo nem trs vezes! 
Que lhe poderia ter eu falado? De todas essas vezes fui muito frugal com relao  minha alegria - o cu que me perdoe! - Ora essa! Vou apresentar no parlamento 
uma lei para supresso de todos os homens. De que modo poderei vingar-me? Sim, porque vingada hei de ser, to certo como serem feitas de pudim as minhas vsceras.
     (Entra a senhora Ford.)
     SENHORA FORD - Senhora Page, podeis acreditar-me, ia a vossa casa.
     SENHORA PAGE - E podeis crer-me que eu tambm ia fazer-vos uma visita. Tendes aparncia de quem no se sente bem.
     SENHORA FORD - Jamais darei crdito a semelhante coisa, pois posso provar o contrrio.
     SENHORA PAGE -  certo. Pelo menos,  a impresso que me deixais.
     SENHORA FORD - Bem; que seja. Mas torno a dizer que posso provar o contrrio.  senhora Page, aconselhai-me.
     SENHORA PAGE - De que se trata, minha flor?
     SENHORA FORD -  flor! Se no fosse o respeito insignificante que devemos  sociedade, a que honras eu no poderia subir!
     SENHORA PAGE - Enforcai esse respeito insignificante, minha querida, e ficai com as honras. Mas, de que se trata? Ponde de lado as insignificncias. De que 
se trata?
     SENHORA FORD - Se eu me dispusesse a ir para o inferno por uma eternidade ou pouco mais, poderia ser mulher de um cavaleiro.
     SENHORA PAGE - Como! Isso  mentira de tua parte. "Sir Alice Ford!" Cavaleiros desse porte tornam-se logo vulgares, continuando tu no mesmo ponto, no que respeita 
 tua fidalguia.
     SENHORA FORD - Estamos acendendo luz de dia. Lede isto, e vede como posso tornar-me fidalga. Enquanto eu tiver vista para distinguir a corpulncia das pessoas, 
hei de fazer mau juzo dos homens gordos. No entanto, ele no jurava, elogiava a modstia das mulheres e manifestava um desprezo to decente e reservado com relao 
s inconvenincias, que eu teria jurado que sua conduta andava a par com a verdade de suas palavras. Mas ambas se combinam e se adaptam como o centsimo Salmo com 
a msica da cano "As mangas verdes". Que tempestade, pergunto agora, fez encalhar nas praias de Windsor essa baleia, com tantas toneladas de azeite na barriga? 
De que modo vingar me dele? Penso que o melhor meio seria entret-lo com esperanas, at que o fogo maldito de sua luxria o fizesse derreter em sua prpria gordura. 
J ouvistes falar em coisa igual?
     SENHORA PAGE - Carta por carta, com a diferena de que onde uma traz o nome "Ford" a outra mostra o nome "Page". Para tranqilizar-te a respeito do mistrio 
de tua m reputao, aqui tens a irm gmea de tua carta. Mas que fique a herana para a tua, porque posso assegurar-te que a minha jamais a reclamar. Aposto como 
ele tem um milheiro dessas cartas, com o lugar para o nome. E mais: que estas j esto em segunda edio. Sem dvida alguma, vai public-las, porque para ele pouco 
importa o texto, contanto que o nosso nome esteja no meio. Eu preferia ver-me transformada em um dos gigantes e ficar debaixo do monte Plion. Pelo que vejo,  mais 
fcil encontrar vinte rolinhas lascivas do que um homem casto.
     SENHORA FORD - Mas so iguaizinhas as cartas! A mesma letra, as mesmas expresses. Que juzo far ele de ns?
     SENHORA PAGE - Sinceramente, no saberei diz-lo. Isso me leva quase ao ponto de brigar com minha prpria honestidade. De hoje em diante vou ter-me na conta 
de uma pessoa que eu prpria desconheo. Porque  certeza: se ele no houvesse percebido em mim alguma mancha de que eu mesma no tenho conhecimento, no me teria 
abordado com tamanho mpeto.
     SENHORA FORD - Dais a isso o nome de abordagem? Pois tenho certeza de que vou mant-lo sempre em baixo do convs.
     SENHORA PAGE - Eu tambm; se ele conseguir chegar s minhas escotilhas, nunca mais me farei ao mar. Precisamos vingar-nos. Vamos marcar uma entrevista com ele, 
dar uma rstia de esperana para suas pretenses e entret-lo com dilaes de iscas atraentes, at que se veja obrigado a penhorar os cavalos para o hospedeiro da 
Jarreteira.
     SENHORA FORD - Est bem; consinto em praticar com ele qualquer velhacaria, contanto que nossa honra no saia maculada. Ah! Se meu marido visse esta carta! Seria 
pbulo inesgotvel para o seu cime.
     SENHORA PAGE - A vem ele, juntamente com o meu bom marido, que se acha to distante do cime como eu de lhe dar ocasio para isso, o que  distncia incomensurvel, 
me parece.
     SENHORA FORD - Tanto maior  a vossa felicidade.
     SENHORA PAGE - Vamos confabular s entre ns, contra esse cavaleiro enxundioso. Vinde comigo.
     (Afastam-se. Entram Ford, Pistola, Page e Nym.)
     FORD - Espero que nada disso seja verdade.
     PISTOLA - A esperana, por vezes,  um cachorro cot. Mas a verdade  que Sir John ama vossa mulher.
     FORD - Ora, senhor! Minha mulher j no  jovem!
     PISTOLA - Ora, Ford! Ele faz a corte a moas e velhas, pobres e abastadas, altas e baixas; tudo serve. Gosta muito de sarrabulho. Ford, tem cuidado!
     FORD - Ama minha mulher?
     PISTOLA - Com fgado escaldante. Toma logo tuas medidas, caso no desejes virar o senhor Acteo, e perseguido por matilha atroadora. Oh nome odioso!
     FORD - Que nome, senhor?
     PISTOLA - Cornos, senhor. Adeus. Toma cuidado! Abre o olho, que os ladres gostam da noite. Toma outras medidas antes que o vero chegue e o cuco cante. Vamos, 
sargento Nym. Page, podes crer nele;  veraz sempre. (Sai.)
     FORD ( parte) - Preciso revestir-me de pacincia para deslindar esse caso.
     NYM (a Page) -  tudo verdade; no me agrada o humor da mentira. Ele me ofendeu em certos humores. Era eu que deveria entregar a tal carta, mas tenho uma espada 
que h de mostrar os dentes, quando for preciso. Ama vossa esposa:  esse o comprido e o curto da coisa. Meu nome  sargento Nym; digo e afirmo que  tudo verdade. 
Chamo-me Nym, e Falstaff gosta de vossa esposa. Adeus. No gosto do humor de po e queijo: eis o humor da coisa. Adeus. (Sai.)
     PAGE ( parte) - "O humor da coisa", foi o que ele disse. Com essas brincadeiras, esse sujeito espanta o prprio humor.
     FORD - Vou procurar Falstaff.
     PAGE - Em toda a minha vida nunca ouvi um velhaco arrastar as palavras com tamanha afetao.
     FORD - Se o encontrar, bem.
     PAGE - No darei crdito a um biltre dessa laia, ainda que o proco da cidade o recomende como a homem verdadeiro.
     FORD -  um rapaz que revela bom senso. Bem.
     PAGE - Ento, Meg?
     SENHORA PAGE - Para onde ides, Jorge? Atendei-me um instante.
     SENHORA FORD - Ento, querido Frank! Por que estais melanclico?
     FORD - Eu, melanclico? No estou melanclico, coisa nenhuma. Ide j para casa, vamos!
     SENHORA FORD - Por minha f, tendes alguma caraminhola na cabea. No vindes, senhora Page?
     SENHORA PAGE - Irei convosco. No ireis jantar, Jorge? ( parte,  senhora Ford.) Vede quem vem ali; vai servir-nos de mensageira para o cavaleiro ridculo.
     SENHORA FORD - Estava pensando justamente nela; o ofcio lhe vai muito bem.
     (Entra a senhora Quickly.)
     SENHORA PAGE - Vieste ver minha filha Ana
     QUICKLY - Sim, por minha f. Por obsquio, como vai passando a menina Ana?
     SENHORA PAGE - Vinde conosco, que vos certificareis do seu estado. Temos uma horinha para conversar.
     (Saem as senhoras Page, Ford e Quickly.)
     PAGE - Ento, mestre Ford?
     FORD - Ouviste o que aquele velhaco me contou, pois no?
     PAGE - Ouvi, e no ouviste tambm o que O Outro me disse?
     FORD - Acreditais que houvessem falado a verdade?
     PAGE - Que se enforquem! Corja de velhacos! No acredito que o cavaleiro seja capaz de semelhante coisa. Os que o acusam de ter essas intenes com relao 
a nossas esposas foram despedidos do servio dele, e desde ento andam como uma junta de vagabundos sem ocupao.
     FORD - Foram criados dele?
     PAGE - Sem dvida.
     FORD - Mas nem assim a notcia me deixa tranqilo. Ele se hospeda na Jarreteira?
     PAGE - Isso mesmo. Ele que penda para o lado de minha mulher, que eu a soltarei em cima dele. Se ele conseguir alguma coisa mais do que palavras duras, assumo 
o peso da responsabilidade.
     FORD - No desconfio de minha mulher, mas no quero v-los juntos. Um homem pode ser muito confiante; no desejo ter nada na cabea; no me agradam essas responsabilidades.
     PAGE - Vde quem vem vindo ali! No  o nosso hospedeiro da Jarreteira? Para estar com aparncia to jovial, ou traz vinho no caco ou dinheiro na sacola. (Entram 
o estalajadeiro e Shallow.) Ento, meu estalajadeiro?
     ESTALAJADEIRO - Ento, ferrabrs? s um gentil-homem, cavaleiro-juiz;  o que te digo.
     SHALLOW - J te sigo, estalajadeiro; j te sigo. Bom-dia vinte vezes, meu bom mestre Page! Mestre Page, no quereis ir conosco? Temos uma brincadeira em perspectiva.
     ESTALAJADEIRO - Conta-lhe o que h, cavaleiro-juiz; conta-lhe o que h, meu ferrabrs.
     SHALLOW - Senhores, h uma rixa a ser dirimida entre o reverendo Hugo, o padre galense, e Caius, o doutor francs.
     FORD - Meu excelente estalajadeiro da Jarreteira, uma palavrinha.
     ESTALAJADEIRO - Que disseste, ferrabrs?
     (Conversam  parte.)
     SHALLOW (a Page) - Quereis ir conosco, para assistir ao espetculo? O nosso estalajadeiro brincalho ficou incumbido de medir as armas e creio que designou 
lugares diferentes, para os contendores. Pois em verdade ouvi dizer que o pastor no  para graas. Vinde comigo; vou explicar-vos o em que ir consistir a nossa 
brincadeira.
     (Conversam  parte.)
     ESTALAJADEIRO - No tens nenhuma queixa contra meu hspede-cavaleiro?
     FORD - Nenhuma, posso asseverar-vos; mas prometo-vos uma botija de xerez queimado, para me aproximardes dele e dizerdes que me chamo Fontes;  uma simples brincadeira.
     ESTALAJADEIRO - Aperta esta mo, Rolando! Ters acesso e recesso - falei bonito, no? - e te chamars Fontes de verdade.  um cavaleiro divertido. No vindes, 
senhores?
     SHALLOW - Irei convosco, estalajadeiro.
     PAGE - Ouvi dizer que o francs maneja espada com muita habilidade.
     SHALLOW - Ora, senhor! Sobre isso eu poderia contar-vos muita coisa. Hoje, todos vs vos conservais em distncia, com vossos passos e estocadas e no sei o 
que mais. O que importa  o corao, mestre Page; neste ponto! neste ponto! J vi o tempo em que com minha espada comprida vos faria saltar como ratos quatro sujeitos 
deste tamanho.
     ESTALAJADEIRO - Por aqui, rapazes! Por aqui! Vamos indo?
     PAGE - Irei convosco. Preferira v-los discutir a se baterem em duelo.
     (Saem o estalajadeiro, Shallow e Page.)
     FORD - Muito embora Page seja um imbecil pachorrento e confie demais na fragilidade de sua mulher, no porei de lado minhas desconfianas assim com facilidade. 
Ela esteve com Falstaff em casa de Page, no sabendo eu o que fizeram por l. Muito bem; vou estudar o caso mais de perto. Tenho um disfarce para sond-lo. Se eu 
verificar que ela  honesta, no darei por perdido o trabalho. Caso contrrio, foi muito bem empregado. (Sai.)

      
Cena II
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram Falstaff e Pistola.
      
     FALSTAFF - No te emprestarei um s vintm.
     PISTOLA - Ento o mundo vai servir-me de ostra, que com a espada eu abro. Pagaria tudo, depois, em gneros.
     FALSTAFF - No; nem um vintm. Permiti, senhor, que penhorsseis meu crdito; incomodei por trs vezes meus amigos, para obter sus penso da pena em que haveis 
incorrido com vosso companheiro de trela, Nym, sem o que ambos tereis ficado a olhar pela grade, como um par de bugios. J estou condenado ao inferno, por ter jurado 
a uns gentis-homens, amigos meus, que reis bons soldados e rapazes de valor, e quando a senhora Bridget perdeu o cabo da ventarola, dei minha palavra de honra em 
como no estava em teu poder.
     PISTOLA - No pesco nada, ento? Nem quinze pences?
     FALSTAFF - E com razo, velhaco. Pensas, ento, que eu vou arriscar gratuitamente a alma? Em resumo: deixai de andar pendurado em minha pessoa. No sou forca. 
Ide-vos logo! Uma faca curta e ajuntamento de gente  s o que vos importa. Ide para o vosso castelo de Pichthatch! No podeis entregar uma carta de minha parte, 
no  assim? E contra vossa dignidade, no? Baixeza ilimitada,  o que devereis ter dito, quando  certo que eu fao impossveis para no ultrapassar o limite da 
dignidade. Sim, eu, eu mesmo, deixando na mo esquerda o temor de Deus e escondendo a honra na necessidade, consinto em tergiversar, em rondar sebes, em lanar mo 
de expedientes, ao passo que vs, malandro, quereis pr esses trapos, esse olhar de gato do mato, vossas frases de cervejaria sob o amparo de vossa dignidade?
     PISTOLA - Arrependido estou. Que mais puderas exigir de um mortal?
     (Entra Robim.)
     ROBIM - Senhor, a est uma mulher que deseja falar-vos.
     FALSTAFF - Manda-a entrar.
     (Entra a senhora Quickly.)
     QUICKLY - Bom dia para Vossa Senhoria.
     FALSTAFF - Bom dia, boa senhora.
     QUICKLY - Senhora, no; se no for do desagrado de Vossa Senhoria.
     FALSTAFF - Nesse caso, senhorita.
     QUICKLY - Que o sou, jurar podia, como o era minha me, tendo eu um dia.
     FALSTAFF - Acredito no juramento. Que quereis a meu respeito?
     QUICKLY - Poderia dizer-vos uma palavrinha, ou duas?
     FALSTAFF - At duas mil, mulher encantadora; concedo-vos ateno.
     QUICKLY - H uma certa senhora Ford, senhor... Por obsquio, vinde para mais perto... Eu prpria moro com o doutor Caius.
     FALSTAFF - Muito bem. Prossegui. A senhora Ford, eis dizendo...
     QUICKLY - Vossa Senhoria tem razo. Pediria a Vossa Senhoria que se chegasse mais um pouco para este lado.
     FALSTAFF - Posso assegurar-te que ningum nos ouve. So meus empregados, so meus empregados.
     QUICKLY - Ah! Sim? Que Deus os abenoe e faa deles seus servidores.
     FALSTAFF - Muito bem. A senhora Ford... Que h a respeito dela?
     QUICKLY - Pois no, senhor;  uma boa criatura.  senhor! senhor! Vossa Senhoria  um sedutor de marca! O cu que vos perdoe e a todos ns,  s o que peo.
     FALSTAFF - A senhora Ford... Vamos! A senhora Ford!
     QUICKLY - Que seja! O comprido e o curto da questo  que a pusestes em tamanha entaladela, que  de pasmar a gente. O mais alinhado corteso, no tempo em que 
a corte esteve aqui em Windsor, no a teria posto numa entaladela assim. E note-se: tivemos cavaleiros, nobres e gentis-homens, com suas carruagens, posso assegurar-vos, 
carruagens sobre carruagens, cartas sobre cartas, presentes sobre presentes, e com cheiro to agradvel - era s almscar - e embrulhados em seda e ouro, posso asseverar-vos, 
que at estalavam, e em termos to aligantes, e com vinhos e aucares das melhores marcas, que teriam conquistado o corao a qualquer mulher. Mas posso assegurar-vos 
que eles nunca puderam obter dela um olhar sequer. Ainda hoje pela manh ganhei vinte anjos; Mas desafio todos os anjos, anjos dessa qualidade, como se diz, quando 
no so ganhos honestamente. E posso assegurar-vos que nem os mais importantes conseguiram beber com ela no mesmo copo. No entanto entre eles havia bares e at 
mesmo pensionrios. Mas posso assegurar-vos que para ela tudo era a mesma coisa.
     FALSTAFF - Mas que disse ela de mim? Sede breve, senhora Mercrio.
     QUICKLY - Ora, recebeu vossa carta, e vos envia mil agradecimentos, mandando-vos notificar que o marido dela estar ausente de casa entre dez e onze horas.
     FALSTAFF - Entre dez e onze horas?
     QUICKLY - Certo. Nesse intervalo podereis ir ver o retrato que j conheceis; mestre Ford, o marido dela, no estar em casa. Ah! Aquela coitada leva com ele 
uma vida muito dura;  ciumento em excesso; ela leva com ele uma vida miservel. Coitadinha!
     FALSTAFF - Dez e onze! Mulher, recomenda-me a ela. No faltarei.
     QUICKLY - Est bem. Mas ainda tenho outro recado para Vossa Senhoria: a senhora Page tambm se recomenda de corao a Vossa Senhoria. E permiti que vos diga 
ao ouvido: ela  fartuosa como o pode ser uma mulher civil e honesta, uma mulher, posso asseverar-vos, que nem de manh nem de tarde deixa de dizer as suas oraes, 
to bem como qualquer mulher de Windsor, seja ela quem for. Pediu-me que dissesse a Vossa Senhoria que o marido dela raramente para fora de casa, mas que ela espera 
que no h de faltar ocasio. Nunca vi uma mulher to obcecada por algum. S parece que tendes feitio, no?  pura verdade.
     FALSTAFF - No, posso asseverar-te. Se abstrairmos a atrao de minhas boas qualidades, no disponho de nenhum feitio.
     QUICKLY - Que o cu vos abenoe.
     FALSTAFF - Mas dize-me uma coisa, por obsquio: a mulher de Ford e a de Page em conversa entre si, contaram que esto apaixonadas por mim?
     QUICKLY - Teria graa! Elas no so to simples a esse ponto. Seria uma brincadeira de mau gosto. A senhora Page manda pedir-vos, por tudo que vos for de mais 
caro, que lhe envieis o vosso pajenzinho. O marido dela dedica enorme afeio a esse pajenzinho. E em verdade, mestre Page  um homem muito srio. No h mulher 
em Windsor que leve melhor vida do que a dele: faz o que quer, diz o que quer, recebe tudo, paga tudo, deita-se quando lhe apetece, levanta-se quando lhe d vontade, 
tudo, tudo de acordo com a vontade dela. E realmente, ela o merece; porque se h em Windsor mulher boa,  ela. Tereis de enviar-lhe vosso pajem; no h remdio.
     FALSTAFF - Pois no; envi-lo-ei.
     QUICKLY - Enviai-o, ento. E, ora vede, ele poder levar e trazer recados; mas, pelo sim pelo no, ser conveniente usardes alguma palavra cifrada, para que 
possais conhecer mutuamente vossos pensamentos, sem que o rapaz compreenda o de que se trata, pois no ser bom ficarem as crianas sabendo qualquer maldade. As 
pessoas mais velhas, como o sabeis, so mais discretas, e, como se diz, conhecem o mundo.
     FALSTAFF - Passa bem. Recomenda-me a ambas. - Pequeno, vai com esta mulher. (Saem a senhora Quickly e Robim.) Essas notcias me deixaram confuso.
     PISTOLA - Esta bisca decerto  mensageira do deus Cupido. Afrouxai mais as velas! No rasto dela! Acima os anteparos! Fogo! Se no for minha, ao mar com todos!
     FALSTAFF - Pensas desse modo, velho Jack? Continua no mesmo caminho. Daqui por diante passarei a ter em melhor conta o teu velho corpo. Elas ainda olham para 
o teu lado? Depois de haveres gasto tanto, ainda queres ganhar alguma coisa? Obrigado, meu belo corpo; pouco importa que te chamem de grandalho; uma vez que ainda 
agradas,  quanto basta.
     (Entra Bardolfo com um copo de xerez.)
     BARDOLFO - Sir John, est l em baixo um tal mestre Fontes que deseja falar-vos e travar relaes convosco. Para isso, enviou a Vossa Senhora um pingo matinal 
de xerez.
     FALSTAFF - O nome dele  Fontes?
     BARDOLFO - Perfeitamente, senhor.
     FALSTAFF - Faze-o entrar. (Sai Bardolfo.) So sempre bem recebidas as fontes de onde jorra licor desta espcie. Ah! Ah! Senhora Ford e senhora Page, apanhei-vos, 
no? Via!
     (Volta Bardolfo com Ford, disfarado.)
     FORD - Deus vos abenoe, senhor.
     FALSTAFF - E a vs tambm, senhor. Quereis falar-me?
     FORD -  muita ousadia de minha parte; vim procurar-vos sem grandes cerimnias.
     FALSTAFF - Sois muito bem-vindo. Que vos traz aqui? - Deixa-nos, rapaz.
     (Sai Bardolfo.)
     FORD - Senhor, eu sou um gentil-homem que j gastei muito dinheiro. Chamo-me Fontes.
     FALSTAFF - Excelente mestre Fontes, desejo travar mais ntimo conhecimento convosco.
     FORD - Meu bom sir John, eu  que desejo sinceramente travar conhecimento convosco, pois devo dizer-vos que me considero em muito melhores condies para emprestar 
dinheiro do que vs. Foi isso que me animou a vir importunar-vos, porque, como se diz: quando o dinheiro vai na frente, todos os caminhos se abrem.
     FALSTAFF - O dinheiro, senhor,  um bom soldado; avana sempre.
     FORD -  certo. Agora mesmo tenho um saco de moedas que me causa certo embarao. Se quiserdes, sir John, ajudar-me a carreg-lo, podeis ficar com todas, ou 
com metade, a fim de me aliviardes desse peso.
     FALSTAFF - Senhor, ignoro o motivo de tornar-me vosso carregador.
     FORD - Vou dizer-vos, senhor, se me quiserdes ouvir.
     FALSTAFF - Falai, meu bom mestre Fontes; ficarei satisfeito por vos prestar algum servio.
     FORD - Senhor, ouvi dizer que sois uma pessoa inteligente. Serei breve convosco, por serdes pessoa que eu conheo de longa data, conquanto nunca tivesse tido 
a feliz oportunidade que tanto desejava de tornar-me vosso conhecido. Vou revelar-vos um segredo que deixar patente minha grande fragilidade. Mas, meu caro sir 
John, ao lanardes um dos olhos para as minhas loucuras, quando eu vo-las houver patenteado, volvei o outro para o registro das vossas, para que mais facilmente 
eu possa receber censuras, uma vez que vs prprio sabeis como  fcil incidir em semelhantes erros
     FALSTAFF - Muito bem, senhor; continuai.
     FORD - H uma senhora nesta cidade, cujo marido se chama Ford.
     FALSTAFF - Muito bem, senhor.
     FORD - H muito que lhe dedico amor, podendo asseverar-vos que despendi muito dinheiro com ela; segui-a com a mais delicada ateno, multipliquei as oportunidades 
de nos encontrarmos, pagando as menores ocasies, que se me apresentassem, de v-la, embora s de passagem; no somente comprei muitos presentes para oferecer-lhe, 
como despendi  larga com muitas pessoas, s para vir a saber o que ela poderia desejar. Em suma: persegui-a como o amor me perseguia, isto , com as asas de todas 
as ocasies. Mas, por maior que fosse o meu mrito, tanto no que diz respeito aos meus sentimentos como aos meios aplicados por mim, recompensa, tenho certeza, no 
recebi nenhuma, a menos que a experincia seja uma jia que me houvesse custado preo elevadssimo, e me houvesse ensinado a dizer que tal como sombra, o amor corre 
de quem o segue: foge, se o perseguis; se fugis, vos persegue.
     FALSTAFF - Nunca recebeste da parte dela nenhuma promessa animadora?
     FORD - Nenhuma.
     FALSTAFF - Nunca fostes insistente em vossas pretenses?
     FORD - Nunca.
     FALSTAFF - De que espcie, ento, era vosso amor?
     FORD - Era uma bela casa construda em terreno alheio, vindo eu a perder o meu edifcio, por me haver enganado quanto ao local.
     FALSTAFF - E com que finalidade me revelais isso tudo?
     FORD - Quando eu vos tiver contado isso, terei revelado tudo. J houve quem me dissesse que embora ela se comporte honestamente com relao  minha pessoa, 
em relao a outras de tal modo ela expande o seu gnio folgazo, que d nascimento a comentrios maldosos. E agora, sir John, aqui tendes o corao do meu pensamento: 
sois um gentil-homem de excelente educao, de admirvel discurso, de grande poder de insinuao, de influncia notria, j por vossa posio, j por vossa pessoa, 
e sumamente estimado por vossos mritos variados, de guerreiro, corteso e de pessoa de conhecimentos profundos...
     FALSTAFF - Oh, senhor!
     FORD - Sim, podeis ter a certeza disso, porque sabeis que  assim mesmo. Aqui vos entrego dinheiro. Gastai-o; gastai mais ainda; gastai tudo o que possuo. Em 
troca, s vos peo um pouco do vosso tempo, o necessrio para estabelecermos um cerco amoroso  honestidade da mulher desse Ford. Aplicai vossa arte de seduo, 
forai-a a ceder a vossas instncias. Se h quem possa conseguir tal coisa, sois vs, antes de qualquer outra pessoa.
     FALSTAFF - Conviria  veemncia de vossa paixo, que eu viesse a alcanar o que desejareis conquistar? Quer me parecer que prescreveis a vs prprio um remdio 
despropositado.
     FORD - Oh! Compreendei bem o meu plano. Ela se acastela com tanta segurana na excelncia de sua honestidade, que a tolice do meu corao no se atreve a apresentar-se 
diante dela: ela brilha por demais, para que possa ser fitada. Mas se eu pudesse chegar at ela com alguma prova em mos, teriam os meus desejos exemplo e argumento 
para se recomendarem; eu poderia, ento, desloc-la da fortaleza de sua honestidade, de sua reputao, de seu juramento de casada e de mil outras defesas que por 
enquanto se acham demasiadamente armadas contra mim. Que dizeis a isso, sir John?
     FALSTAFF - Em primeiro lugar, mestre Fontes, tomarei a liberdade de receber esse dinheiro; depois, apertarei vossa mo, e por ltimo vos declaro que, to certo 
como eu ser um gentil-homem, podereis, se o quiserdes, chegar a possuir a mulher de Ford.
     FORD - Oh, meu digno senhor!
     FALSTAFF - Afirmo que a possuireis.
     FORD - Dinheiro, sir John, no vos h de faltar; no vos h de faltar.
     FALSTAFF - Nem a vs, mestre Fontes, h de faltar a mulher de Ford, no vos h de faltar. Vou ter uma entrevista com ela - digo-vos isso aqui muito em particular 
- por indicao dela prpria. Justamente no momento em que chegastes, acabava de sair daqui sua auxiliar, ou alcoviteira. Mandei dizer-lhe que iria  casa dela entre 
as dez e as onze horas, que  a hora, justamente, em que se acha fora aquele biltre, o ciumento do marido. Voltai aqui  tarde, que vos direi o que consegui.
     FORD - Vosso conhecimento  para mim verdadeira beno. Conheceis esse Ford, senhor?
     FALSTAFF - Esse pobre idiota que se enforque! Cabro de uma figa! No o conheo. Alis, chamando-lhe pobre, fao-lhe uma injustia, por que dizem que esse cornudo 
ciumento possui montes de dinheiro, o que  uma das razes de parecer-me sua mulher muito bem apessoada. Para mim, ela vai servir de chave para abrir o cofre desse 
idiota cornudo.
     FORD - Lamento, senhor, que no conheais Ford, para poderdes evit-lo, no caso de virdes a vos encontrar com ele.
     FALSTAFF - Esse vendedor de manteiga salgada que se enforque! Tipo -toa! Vou encar-lo, a ponto de faz-lo perder a tramontana; infundir-lhe o respeito com 
a minha cachamorra, pendurar-me em seus cornos de cabro, como verdadeiro meteoro. Sim, mestre Fontes, vais ver como eu domino aquele rstico; ainda virs a deitar-te 
com a mulher dele. Vem falar comigo  noitinha. Ford  um bisbrria, ttulo esse que eu vou deixar mais caracterizado ainda. Podes ter a certeza, mestre Fontes, 
de que o ficars conhecendo pelo que  mesmo: biltre e cornudo. (Sai.)
     FORD - Que epicrico amaldioado  este miservel! Sinto o corao partir-se-me de impacincia. E ainda haver quem me venha dizer que o meu cime  intempestivo? 
Minha mulher lhe mandou recado; a hora est marcada;  negcio feito. Algum poderia pensar em semelhante coisa? Vede que inferno  possuir uma mulher falsa. Vou 
ficar com o leito poludo, os cofres saqueados, a reputao estraalhada. E no somente terei de suportar todos esses ultrajes, como ainda serei forado a ouvir 
os mais abominveis qualificativos, da boca, justamente, de quem me lana todo esse oprbrio. Que qualificativos? Que nomes? Amaimom soa bem; Lcifer, bem; Barbason, 
bem. No entanto so qualificativos do diabo, nomes do demnio. Mas cornudo, cabro, chifrudo! Nem o prprio diabo tem esses nomes. Page  um asno, um asno sossegado; 
confia na mulher, no sente cimes. Eu preferira entregar toda minha manteiga a um holands, meu queijo ao pastor Hugo, o galense, minha garrafa de aguardente a 
qualquer irlands, ou o meu cavalo castrado a um ladro, para dar um passeio nele, a deixar minha mulher com ela prpria. Ela enreda, rumina e trama; o que as mulheres 
resolvem no corao tem de ser levado a cabo; ainda que se lhes parta o corao, tm de ir at ao fim. Louvado seja Deus por causa do meu cime. Onze horas  a hora 
combinada. Vou impedir isso, surpreender em flagrante minha mulher, vingar-me de Falstaff e zombar de Page. No perderei tempo.  melhor chegar trs horas mais cedo 
do que atrasado de um minuto. Sim, senhor! Sim, senhor! Cabro! Cabro! Cabro! (Sai.)

      
Cena III
      
Um campo perto de Windsor. Entram Caius e Rugby.
      
     CAIUS - Jack Rugby!
     RUGBY - Senhor?
     CAIUS - Que horras som, Jack?
     RUGBY - J passou da hora, senhor, que o reverendo Hugo prometeu vir.
     CAIUS - Pardieu! No vindo, salvou a alma. Se no veio,  que rezou bastante em sua Bblia. Pardieu, Jack Rugby, se ele tivesse vindo, j estarria morto.
     RUGBY - Ele  sabido, senhor; compreendeu que, se viesse, Vossa Senhoria o haveria de matar.
     CAIUS - Pardieu! Um arrenque salgado no est mais morto do que ele vai ficar. Segurrai em vossa espada, Jack; querro mostrar-vos como pretendo mat-lo.
     RUGBY - Oh, senhor! Mas eu no conheo esgrima!
     CAIUS - Vamos, marroto! Segurrai a espada!
     RUGBY - Um momento! Vem chegando gente.
     (Entram o estalajadeiro, Shallow, Slender e Page.)
     ESTALAJADEIRO - Deus te abenoe, doutor mata-sete.
     SHALLOW - Deus vos proteja, mestre doutor Caius.
     PAGE - Como vamos, bom mestre doutor?
     SLENDER - Bom dia, senhor.
     CAIUS - Pourquoi tanta gente aqui? Un, deus, trois, quatre...
     ESTALAJADEIRO - Viemos ver como te bates, como ds um bote, como te pes de guarda, como ficas aqui, como ficas ali... Viemos ver teu golpe de ponta, tua estocada, 
teus reversos, tua distncia, teu montante. Ele j morreu, meu etipico? Ele j morreu, meu Francisco? Ento, mata-sete? Que diz o meu Esculpio? o meu Galeno? meu 
corao de subugueiro? Ah! J morreu, bobo grande?
     CAIUS - Pardieu! Esse Jack  o padre mais poltron do mundo; no mostrou nem o rosto.
     ESTALAJADEIRO - s um rei de Castela, dom Urinal! Heitor da Grcia, rapaz.
     CAIUS - Je vous prie, sede testemunhas em como eu esperrei seis ou sete, duas, trs horas, e ele no apareceu.
     SHALLOW - De vs dois, ele  o mais prudente, mestre doutor;  mdico de almas, enquanto vs sois mdico do corpo. Se vos tivsseis batido, tereis deixado 
vossa vocao de plo arrepiado. No  verdade, mestre Page?
     PAGE - Mestre Shallow, j fostes um grande esgrimista, conquanto agora sejais um homem pacfico.
     SHALLOW - Pelo corpo de Deus, mestre Page, embora velho e pacfico, E quando vejo uma espada, sinto ccegas nos dedos, s de vontade de apanh-la. Ainda que 
sejamos juzes, e doutores e sacerdotes, mestre Page, ainda conservamos algum sal da mocidade. Somos filhos de mulher, mestre Page.
     PAGE -  verdade, mestre Shallow.
     SHALLOW - Sem dvida, mestre Page. Mestre doutor Caius, estou aqui para levar-vos para casa. Fiz juramento para juiz de paz; comportastes vos como mdico sbio, 
e o reverendo como sbio e paciente membro da igreja. Tereis de ir comigo, mestre doutor.
     ESTALAJADEIRO - Perdo, hspede-juiz; uma palavrinha, senhor mexedor de gua.
     CAIUS - Mexedor de gua? Que quer dizer isso?
     ESTALAJADEIRO - Mexedor de gua, meu gigante, em nossa lngua quer dizer valoroso.
     CAIUS - Pardieu, nesse caso eu sou to mexedor de gua como os ingleses. Cachorro miservel aquele padre -toa! Pardieu! Vou cortar-lhe as orrelhas.
     ESTALAJADEIRO - Ele acaba mas  te macetando a cabea, meu gigante.
     CAIUS - Macetando a cabea? Que  isso?
     ESTALAJADEIRO - Quer dizer que te dar explicaes.
     CAIUS - Pardieu, ides ver como ele me macetarr mesmo a cabea. Pardieu,  isso mesmo que eu querro.
     ESTALAJADEIRO - E eu vou incit-lo a fazer isso, ou ele h de espernear comigo.
     CAIUS - Eu vos agradecer por isso.
     ESTALAJADEIRO - Alm do mais, trinca-ferros... ( parte.) Mas, antes de tudo, mestre hspede e mestre Page, e vs tambm, cavaleiro Slender, ide pela cidade 
a Frogmore.
     PAGE - O reverendo Hugo est l?
     ESTALAJADEIRO - Est. Vede em que humor se encontra, que eu e o doutor iremos pelo campo. Est bem?
     SHALLOW - Faremos tudo de acordo.
     PAGE, SHALLOW e SLENDER - Adeus, meu bom mestre doutor. (Saem Page, Shallow e Slender.)
     CAIUS - Pardieu! Querremos matar o padre; ele quer falar com Ana Page a favor de um macaque.
     ESTALAJADEIRO - Mata-o, mas primeiro acalma a pacincia; joga gua fria em tua clera. Vamos dar um passeio pelo campo at Frogmore; vou levar-te para junto 
da senhorita Ana Page; ela est jantando em uma herdade. L, poders fazer-lhe a corte. Tens coragem?
     CAIUS - Pardieu, agradeo tudo. Pardieu, je vous aime; vou arranjar bons fregueses, o conde, o cavaleiro, nobres, gentis-homens. Todos os meus clientes.
     ESTALAJADEIRO - Em pagamento, serei teu adversrio com relao a Ana Page. Falei bem?
     CAIUS - Pardieu; trs bien; muito bem dito.
     ESTALAJADEIRO - Ento partamos.
     CAIUS - Jack Rugby, vem atrs de mim.
     (Saem.)

      
ATO III
Cena I
      
Campo perto de Frogmore. Entram o reverendo Hugo Evans e Simples.
      
     EVANS - Por opsquio, meu pom servidor do mestre Slender, de nome amigo Simples, por que caminhos procurastes mestre Caius, que se intitula doutor em medicina?
     SIMPLES - Ora, senhor, pelo caminho do parque, por todos os caminhos, pelo caminho da velha Windsor, por todos os caminhos, menos o da cidade.
     EVANS - Em tesejo muito feementemente que o procureis tambm por esse caminho.
     SIMPLES - Pois no, senhor. (Sai.)
     EVANS - Deus apenoe minha alma. Como me sinto cheio de clera e de tremores de esprito! Ficarei satisfeito se ele me enganou. Como me sinto melanclico! Hei 
de queprar o urinol dele na sua cabea de maroto, logo que encontrar obortunidade para isso. Deus apenoe minha alma. (Canta.)
Nas margens plas dos regatinhos em crro cantam os passarinhos. Muitos canteiros farrei de rossas, todas ponitas, todas cheirossas. Nas margens plas... Oh Deus 
pondoso, sinto vontade de chorar!
     (Canta.)
... em corro cantam os passarinhos, junto dos rios de Papilnia... todas ponitas, todas cheirossas. Nas margens plas...
     (Volta Simples.)
     SIMPLES - Ele vem vindo por este lado, reverendo Hugo.
     EVANS - Ser pem-vindo. (Canta.) - Nas margens plas dos regatinhos... O cu defenda o direito. Que armas ele traz?
     SIMPLES - No traz armas, senhor. A vem meu amo, mestre Shallow, com outro cavaleiro de Frogmore, do lado de l da cancela, deste lado.
     EVANS - Por opsquio, dai-me meu sobretudo, ou melhor fica com ele no prao. (L em um livro. Entram Page, Shallow e Slender.)
     SHALLOW - Ento, mestre pastor! Bom dia, meu caro reverendo Hugo. Tirai dos dados o jogador e dos livros o estudioso... Isso sim,  que  milagre.
     SLENDER( parte) - Ah, suave Ana Page!
     PAGE - Deus vos guarde, reverendo Hugo.
     EVANS - E apenoe a todos em sua misericrdia.
     SHALLOW - Como! A espada e o livro? Estudais ambos, mestre pastor?
     PAGE - E em trajes de rapaz, de gibo e cala, num tempo destes, mais prprio para apanhar resfriado?
     EVANS - Tenho rasses e causas para isso.
     PAGE - Mestre pastor, viemos para vos prestar um bom servio.
     EVANS - Muito pem; de que se trata?
     PAGE - Ali adiante h um respeitvel cavalheiro, que, tendo sido ofendido por algum, se encontra em dificuldades, como nunca vistes, com sua prpria gravidade 
e pacincia.
     SHALLOW - J passei dos oitenta anos, mas nunca vi uma pessoa de sua posio, gravidade e saber que houvesse perdido a esse ponto a compostura.
     EVANS - Quem  ele?
     PAGE - Penso que o conheceis;  o mestre doutor Caius, o famoso mdico francs.
     EVANS - Pela baixo do Senhor; preferia que me falassem de um prato de sopa.
     PAGE - Por qu?
     EVANS - Esse suxeito no conhece nada de Hibcrates nem de Galeno, e no passa de um velhaco, um velhaco to covarde como podereis desejar conhecer.
     PAGE (a Shallow) - Aposto que  ele que devia bater-se com o doutor.
     SLENDER ( parte) - Oh suave Ana Page!
     SHALLOW - Parece que sim, porque est armado. Separai-os; vem vindo o doutor Caius.
     (Entram o Estalajadeiro, Caius e Rugby.)
     PAGE - Assim no, excelente mestre pastor; guardai a espada.
     SHALLOW - Fazei o mesmo, meu bom mestre doutor.
     ESTALAJADEIRO - Desarmemo-los e deixemo-los discutir que fiquem com os membros inteiros e estraalhem apenas o nosso ingls.
     CAIUS - Por obsquio, deixai-me parler uma palavra  l'orreille: pour quoi no querreis me encontrar?
     EVANS ( parte, a Caius) - Por opsquio, bacincia, bacincia,  s o que eu digo.
     CAIUS - Pardieu, sois un couard, um co de Jack, um macaque de Jean.
     EVANS ( parte, a Caius) - Por opsquio, no nos tornemos motivo de calhofa para os outros. Desejo vossa amizade e dar-vos qualquer rebaraon. (Alto.) Vou queprar 
vosso urinol nessa capea de marroto, por no terdes vindo ao encontro compinado.
     CAIUS - Diable! Jack Rugby, meu estalajadeiro de la Jarretire, eu non o esperrei para mat-lo? No o esperrei no lugar que j'avais indiqu?
     EVANS - To certo como eu ter alma crist, ora vede, o lugar compinado foi este. Como testemunha chamo o estalaxadeiro da Xarreteira.
     ESTALAJADEIRO - Paz,  o que eu digo, Glia e Vlia, gauls e gals, mdico do corpo e mdico da alma!
     CAIUS - Ah! C'est trs bien! Excelente.
     ESTALAJADEIRO - Paz,  o que eu digo. Escutai o estalajadeiro da Jarreteira. Serei poltico? Serei sutil? Serei Maquiavel? Terei de perder o meu doutor? No. 
 ele quem me d as poes e as noes. Terei de perder o meu pastor, meu padre, meu reverendo Hugo? No;  ele quem me d os provrbios e os no-vrbios. Dai-me 
essa mo terrestre. Assim! Dai-me essa mo celeste. Assim! Rapazes da arte, enganei a ambos; aprazei-vos para lugares diferentes. Sois ambos de corao forte e ambos 
estais com a pele intacta. Que tudo termine em xerez queimado. Vamos, deixai as espadas como penhor. Segui-me, homens de paz, acompanhai-me, acompanhai-me!
     SHALLOW - Por minha f, esse estalajadeiro  um pndego! Vinde, cavalheiros. Vinde todos!
     SLENDER ( parte) - Oh suave Ana Page!
     (Saem Shallow, Slender, Page e o Estalajadeiro.)
     CAIUS - Ah! Ah! Je conprends! Zombrron de ns, n'escepas? Ah! Ah!
     EVANS - Berfeitamente. Riram de ns. Por opsquio, fiquemos amigos e vamos pater a capea juntos para nos vingarmos desse tinhoso, desse felhaco, desse suxeito 
adulador, o estalaxadeiro da Xarreteira.
     CAIUS - Pardieu, de todo o corraon. Ele prometeu que me levarria a Ana Page. Pardieu! A mim tambm ele enganou.
     EVANS - Berfeitamente. Vou amassar-lhe a capea. Vinde comigo, por opsquio.
     (Saem.)

      
Cena II
      
Uma rua de Windsor. Entram a senhora Page e Robim.
      
     SENHORA PAGE - Segui na frente, pequeno galante. Estais acostumado a andar sempre atrs das pessoas; mas agora tereis de servir-me de guia. Que preferis: guiar-me 
os olhos, ou olhar os calcanhares de vosso amo?
     ROBIM - Em verdade, prefiro ir na vossa frente, como homem, a acompanh-lo, como ano.
     SENHORA PAGE - Oh! Sois um pequeno adulador. Estou vendo que dareis um bom corteso.
     (Entra Ford.)
     FORD - Feliz encontro, senhora Page. Para onde ides?
     SENHORA PAGE - Vou justamente, senhor, visitar vossa esposa. Est em casa?
     FORD - Est, e to sem fazer nada, que se sente entediada por falta de companhia. Creio que se vossos maridos viessem a morrer, vos casareis de novo.
     SENHORA PAGE - Nem h dvida! Com dois novos maridos.
     FORD - Onde arranjastes esse bonito catavento?
     SENHORA PAGE - No vos saberei dizer que diabo de nome tem a pessoa de quem meu marido o obteve. Como se chama o cavaleiro vosso amo, garoto?
     ROBIM - Sir John Falstaff.
     FORD - Sir John Falstaff?
     SENHORA PAGE - Isso mesmo. Nunca acerto com o nome dele. Entre ele e meu bom marido h tanta amizade! Mas vossa esposa est realmente em casa?
     FORD - Est.
     SENHORA PAGE - Com vossa licena, senhor. Ficarei doente, se no a vir.
     (Saem a senhora Page e Robim.)
     FORD - Page ter cabea? No ter olhos? No raciocina? No h dvida, est em profundo letargo; no faz uso dos sentidos. Esse pajem levaria uma carta a vinte 
milhas de distncia com a mesma facilidade com que um canho acertaria no alvo a duzentos e quarenta passos. Ele prprio favorece a inclinao da mulher, incrementa 
sua loucura e facilita-lhe a oportunidade. E agora l vai ela visitar minha mulher, acompanhada do pajem de Falstaff! No h quem no oua cantar o vento nesta tempestade. 
Acompanhada do pajem de Falstaff Que bela conjura! Esto combinadas! Nossas esposas rebeladas vo ser condenadas juntas s penas eternas. Muito bem. Vou surpreend-los; 
depois submeterei minha mulher  tortura, arrancarei o falso vu de modstia da santarrona senhora Page e proclamarei o prprio Page como um Acteo tranqilo e complacente, 
estando eu certo de que com esses processos violentos arrancarei aplausos de todos os vizinhos. (Um relgio bate horas.) O relgio me d o sinal, exigindo minha 
convico que inicie as investigaes. Vou encontrar l Falstaff. Minha conduta me ensejar mais elogios do que chufas, porque  to certo como ser firme a terra 
estar Falstaff l em casa. Vamos logo.
     (Entram Page, Shallow, Slender, o estalajadeiro, o reverendo Hugo Evans, Caius e Rugby.)
     PAGE, SHALLOW, etc. - Feliz encontro, mestre Ford.
     FORD - Realmente, bonito bando. H festa hoje l em casa. Esto todos convidados.
     SHALLOW - Peo que me desculpeis, mestre Ford, mas no posso aceitar o convite.
     SLENDER - Nem eu, senhor; prometemos jantar com a senhorita Ana, e eu no faltaria com a palavra por todo o dinheiro que pudesse contar.
     SHALLOW - Estamos tramando o casamento de Ana Page com o meu sobrinho Slender, sendo hoje esperada a resposta.
     SLENDER - Conto com vosso consentimento, paizinho Page.
     PAGE - Pois no, mestre Slender; estarei convosco em tudo. Mas minha mulher, mestre doutor, est inteiramente do vosso lado.
     CAIUS - Oui; Pardieu! E a mademoiselle me ama; minha governante Quickly me asseverou isso mesmo.
     ESTALAJADEIRO - E que dizeis do jovem mestre Fenton? Ele salta, dana, tem olhos de moo, escreve versos, fala como em dia de festa, cheira a abril e maio. 
 ele que vai ganhar! Seus botes o provam.  ele que vai ganhar!
     PAGE - Mas no com o meu consentimento, posso asseverar-vos. Esse moo no tem recursos; anda na companhia do prncipe estrdio e de Poins;  de uma regio 
muito elevada; sabe demais. No, no h de dar um n na fortuna com o dedo de minha substncia. Se vier a casar-se com minha filha, h de ser sem dote. Meus haveres 
dependem de meu consentimento, no embocando este para o lado desse pretendente.
     FORD - Peo encarecidamente que alguns dos presentes me acompanhem at casa, para jantarmos. Alm de boa mesa, prometo-vos tima diverso: pretendo mostrar-vos 
um monstro. Mestre doutor, tereis de ir; e vs tambm, mestre Page, e vs, reverendo Hugo.
     SHALLOW - Nesse caso, passai bem; assim, faremos com mais liberdade o pedido em casa de mestre Page.
     (Saem Shallow e Slender.)
     CAIUS - Vai para casa, Rugby; no me demoro.
     (Sai Rugby.)
     ESTALAJADEIRO - Adeus, coraes. Vou procurar meu honesto cavaleiro Falstaff, para bebermos uma garrafa de Canrias. (Sai o estalajadeiro.)
     FORD ( parte) - Antes disso eu beberei com ele uma pipa de vinho. Vou faz-lo danar. - No quereis vir, senhores?
     TODOS - Vamos ver o tal monstro.
     (Saem.)

      
Cena III
      
Um quarto em casa de Ford. Entram a senhora Ford e a senhora Page.
      
     SENHORA FORD - Ol, Joo! Ol, Roberto!
     SENHORA PAGE - Depressa! Depressa! O cesto de roupa!
     SENHORA FORD - J est  mo. Ol Robim! Estou chamando!
     (Entram criados com um cesto.)
     SENHORA PAGE - Vinde! Vinde! Vinde!
     SENHORA FORD - Colocai-o aqui.
     SENHORA PAGE - Ensinai a vossos homens o que eles tm de fazer. Precisamos ser rpidas.
     SENHORA FORD - Joo, Roberto, como j vos disse, ficai atentos na cervejaria vizinha; quando eu vos chamar, vinde com urgncia, e sem vacilaes e perda de 
tempo carregai este cesto. Feito isso, levai-o com a maior pressa possvel para o ponto em que esto as lavadeiras, no prado de Datchet, e o esvaziais numa das fossas 
de lama, junto do Tmisa.
     SENHORA PAGE - Fareis isso direito?
     SENHORA FORD - J lhes disse vrias vezes tudo o que ser preciso que faam. J tm todas as indicaes. Agora, retirai-vos, e voltai quando eu vos chamar.
     (Saem os criados. Entra Robim.)
     SENHORA FORD - Ento, meu falcozinho? que novidades nos trazes?
     ROBIM - Meu amo, Sir John, se acha na porta dos fundos, senhora Ford, e deseja falar-vos.
     SENHORA PAGE - E tu, pequeno Joo-quaresma, tens-nos sido fiel?
     ROBIM - Posso jur-lo. Meu amo no sabe que estais aqui e me ameaou de pr-me em liberdade eterna, se eu vos dissesse alguma coisa. Jura que h de me despedir.
     SENHORA PAGE - s um bom menino. Tua discrio vai servir-te de alfaiate e confeccionar-te uma cala e um gibo novos. Vou esconder-me.
     SENHORA FORD - Isso mesmo. Vai dizer ao teu amo que eu estou sozinha. (Sai Robim.) Senhora Page, no vos esqueais de vossa deixa.
     SENHORA PAGE - Fica tranqila; se eu no representar direito, poders vaiar-me. (Sai.)
     SENHORA FORD - E agora, mos  obra. Vamos dar ocupao a essa umidade perniciosa, a essa imensa abbora d'gua; vamos ensinar-lhe a distinguir um gaio de uma 
rola.
     (Entra Falstaff.)
     FALSTAFF - "Minha jia celeste me pertence?" ento, posso morrer; j vivi bastante; atingi a meta de minhas ambies. Oh! Que hora abenoada!
     SENHORA FORD - Oh, meu caro sir John!
     FALSTAFF - Senhora Ford, no sei adular, no sei fazer discursos, senhora Ford. Mas permiti que exprima um voto pecaminoso: desejara que vosso marido estivesse 
morto. Afirmaria diante do maior Senhor, que faria de ti a minha senhora, a minha Lady.
     SENHORA FORD - Eu, vossa Lady, sir John? Oh! Daria uma Lady bem ridcula.
     FALSTAFF - A corte da Frana que me apresente outra igual! Estou vendo como esses olhos apostam com diamantes; possus a beleza arcada dos superclios, que 
vai muito bem com o penteado  caravela, ou  vela solta, ou com qualquer penteado  moda de Veneza.
     SENHORA FORD - Uma simples coifa, Sir John,  o que vai bem com minhas sobrancelhas; nada mais.
     FALSTAFF - Pelo Senhor, dizendo isso cometes verdadeira traio  tua pessoa. Darias uma perfeita dama da corte; o modo firme de assentar os ps, quando andas, 
imprimiria um movimento admirvel s anquilosa em semicrculo. Vejo o que vales, se a Fortuna no tivesse sido tua inimiga; a natureza  tua amiga, no poders neg-lo.
     SENHORA FORD - No; podeis crer-me; no possuo esses predicados.
     FALSTAFF - Que foi que me fez ficar apaixonado por ti? Podes ter a certeza de que possuis algo de extraordinrio. Vamos; no sei adular, para dizer-te que s 
isto e aquilo, como tantos desses botes de espinheiro, que falam cheios de esses e parecem mulheres vestidas de homem e cheiram a prateleira de botica na poca 
da colheita dos simples. Isso no posso fazer; mas amo-te; a ti unicamente, que bem o mereces.
     SENHORA FORD - No me enganei, senhor; mas receio que estejais amando a senhora Page.
     FALSTAFF - Isso  o mesmo que afirmares que eu gosto de passear para o lado da priso de Counter-Gate, que me  to repugnante como as exalaes de um fossa 
de cal.
     SENHORA FORD - Bem; que seja. O cu sabe quanto vos amo, o de que algum dia ainda vos convencereis.
     FALSTAFF - Conservai sempre essa disposio, que eu farei por merec-la.
     SENHORA FORD - Sim, posso asseverar-vos: sois merecedor; caso contrrio, no faria o que fao.
     ROBIM (dentro) - Senhora Ford! Senhora Ford! A senhora Page est  porta, suando e soprando e com ar espantado! Quer falar-vos com urgncia.
     FALSTAFF - No convm que ela me veja; vou esconder-me atrs daquela cortina.
     SENHORA FORD - Sim; fazei isso, por obsquio.  uma faladeira incorrigvel.
     (Falstaff se esconde.)
     (Voltam a senhora Page e Robim.)
     SENHORA PAGE - , senhora Ford! Que fizestes? Estais comprometida, estais arruinada, estais perdida para sempre.
     SENHORA FORD - Que aconteceu, minha boa senhora Page?
     SENHORA PAGE - Minha querida senhora Ford! Com um marido to honesto como o que tendes, dardes motivo de suspeita!
     SENHORA FORD - Que motivo de suspeita?
     SENHORA PAGE - Que motivo de suspeita? Ora, envergonhai-vos! Como eu estava iludida a vosso respeito!
     SENHORA FORD - Ai de mim! Que aconteceu?
     SENHORA PAGE - Vosso marido dirige-se para c, mulher, acompanhado de todos os oficiais de justia de Windsor, para prenderem um gentil-homem que dizem estar 
aqui com vosso consentimento, para abusar de sua ausncia. Estais perdida.
     SENHORA FORD ( parte) - Fala mais alto. - Espero que isso no seja verdade.
     SENHORA PAGE - Praza aos cus que no o seja, que no tenhais aqui, realmente, essa pessoa. Mas  certeza estar vosso marido a caminho de casa com meio Windsor 
nos calcanhares, para pegarem esse homem. Vim na frente para vos avisar. Se no tiverdes culpa, muito bem; alegro-me com isso. Mas se acaso tiverdes aqui dentro 
algum amigo, providenciai logo a sada dele. No fiqueis atarantada; reconquistai os sentidos; defendei vossa reputao, ou dizei um eterno adeus  boa vida que 
levais.
     SENHORA FORD - Que farei? H aqui, realmente, um cavalheiro, um amigo muito caro, no me afligindo eu tanto pela minha vergonha como pelo perigo que ele corre. 
Daria mil libras para v-lo longe daqui.
     SENHORA PAGE - Ora! Parai com vossos "Daria isto!" e "Daria aquilo!" Vosso marido est a riscar por a. Pensai em algum meio de fazer sair esse homem; em casa 
 que no podereis escond-lo. Oh! Como me enganara a vosso respeito!... Mas este vosso cesto... Se esse pessoa for de estatura razovel, poder encolher-se dentro 
dele; depois, disfarai o pondo em cima dele alguma roupa usada, como se fsseis envi-la para a barrela. No! Estamos na poca da lavagem; dois dos vossos criados 
podero levar o cesto para o prado de Datchet.
     SENHORA FORD - Ele  muito gordo, para poder entrar a. Que fazer?
     FALSTAFF (avanando) - Deixai-me ver! Deixai-me ver! Oh! Deixai-me ver! Sim, entrarei nele! Entrarei nele! Segui o conselho de vossa amiga; entrarei nele!
     SENHORA PAGE - Como! Sir John Falstaff? So essas as vossas cartas, cavaleiro?
     FALSTAFF -  a ti somente que eu amo. Ajuda-me a sair daqui. Deixa-me entrar no cesto. Nunca hei de...
     (Entra no cesto; elas o cobrem com roupa suja.)
     SENHORA PAGE - Vamos, menino! Ajuda-nos a esconder teu amo. Chamai vossos criados, senhora Ford. Cavaleiro hipcrita!
     SENHORA FORD - Ol, Joo! Roberto! Joo! (Sai Robim.) (Voltam os criados.) Levai daqui esta roupa. Depressa! Onde est a vara de carregar o cesto? Que indolncia! 
Levai-o logo  lavadeira, no prado Datchet. Vamos! Depressa!
     (Entram Ford, Page, Caius e o reverendo Hugo Evans.)
     FORD - Entrai, por obsquio. Se as minhas suspeitas forem infundadas, podeis zombar de mim; ficarei como assunto de galhofa para todos vs, o que ser muito 
bem merecido. E ento, que  que vai a dentro? Para onde levais isso?
     CRIADOS - Para a lavandaria, senhor.
     SENHORA FORD - Ora essa! E que vos importa saber para onde eles vo lev-lo? Seria melhor que fsseis preparar a gua de barrela.
     FORD - gua de barrela? Era com gua de barrela que eu precisava lavar-me. gua de barrela, sim; isto tudo vai terminar  mesmo em gua de barrela;  o que 
vos posso assegurar, e no demora muito. (Saem os criados, carregando o cesto.) Senhores, esta noite eu sonhei; vou contar-vos como foi o sonho. Eis aqui minhas 
chaves, aqui, aqui. Subi ao meu quarto; revistai-o, procurai, que havereis de encontrar. Posso asseverar-vos que haveremos de desencovar a raposa. Mas primeiro deixai-me 
tapar esta sada. (Fecha a porta.) E agora, fazei-a espirrar do buraco.
     PAGE - Meu caro mestre Ford, ficai calmo; assim, prejudicais-vos a vs mesmo.
     FORD -  certo, mestre Page. Cavalheiro, subi, que haveis de achar logo uma boa distrao. Acompanhai-me, cavalheiro. (Sai.)
     EVANS - Esse gabricho  muito fantstico;  um xime difertido.
     CAIUS - Pardieu! En France a moda  outra. En France no h gente ciumenta; on n'est par jaloux.
     PAGE - Sigamo-lo, senhores; vamos ver como vai acabar essa busca.
     (Saem Page, Caius e Evans.)
     SENHORA PAGE - Tudo isso no  duplamente divertido?
     SENHORA FORD - No poderei dizer qual me agrada mais, se a decepo de meu marido ou a de sir John.
     SENHORA PAGE - Que susto ele no teria tido, quando vosso marido perguntou quem ia dentro do cesto!
     SENHORA FORD - Tenho muito receio de que ele tambm esteja necessitado de um banho. Nessas condies, ser at um benefcio jogarem-no na gua.
     SENHORA PAGE - A forca para esse biltre desonesto! Quisera que todos os de sua laia passassem por iguais apuros.
     SENHORA FORD - Creio que meu marido teve notcia de que Falstaff estava aqui; nunca o vi to enciumado como hoje.
     SENHORA PAGE - Vou sond-lo com jeito. Quanto a Falstaff, no ficar s nesta partida. Sua dissoluo no  doena que se possa curar apenas com esta medicina.
     SENHORA FORD - Vamos mandar outra vez aquela bruaca tonta, a senhora Quickly, pedir-lhe desculpas, por ter sido atirado na gua, e dar-lhe mais algumas esperanas, 
a fim de lhe ministrarmos novo castigo?
     SENHORA PAGE - Sim; faamos isso. Chamemo-lo aqui amanh s oito horas, para lhe pedirmos desculpas.
     (Voltam Ford, Page, Caius e o reverendo Hugo Evans.)
     FORD - No pude encontr-lo.  possvel que o biltre se gabasse do que no podia alcanar.
     SENHORA PAGE ( parte,  senhora Ford) - Ouviste o que ele disse?
     SENHORA FORD ( parte,  senhora Page) - Sim; silncio. - Procedestes comigo com muita correo, mestre Ford, no  verdade?
     FORD - Decerto.
     SENHORA FORD - Que o cu vos deixe melhor do que vossos pensamentos.
     FORD - Amm.
     SENHORA PAGE - Com isso, s a vs mesmo prejudicais, mestre Ford.
     FORD - Pois no. Agento as conseqncias.
     EVANS - Se houfer alguma bessoa na casa e nos guartos e nos gofres e nos armrios, que o cu me berdoe os becados no dia de Xuzo.
     CAIUS - Pardieu! Os meus tambm. Il n'y a personne.
     PAGE - Ora, mestre Ford! No vos sentis envergonhado? Que esprito, que demnio, vos sugeriu semelhante idia? Eu no queria ter essa vossa doena, nem por 
toda a riqueza do castelo de Windsor.
     FORD - O erro foi meu, mestre Page; sofrerei as conseqncias.
     EVANS - Enton sofrei as consegncias de uma conscincia m; vossa esbosa  uma senhora to honesta como se boderia desexar entre cinco mil senhoras e em quinhentas 
tambm.
     CAIUS - Pardieu, vejo que ela  une honnte femme.
     FORD - Muito bem; prometi-vos um jantar. Vamos dar um passeio pelo parque. Peo-vos que me perdoeis; depois vos direi por que motivo procedi dessa maneira. 
Vamos, mulher! Vamos, senhora Page; perdoai-me, por obsquio; peo-vos de corao que me perdoeis.
     PAGE - Vamos, senhores; entremos. Mas ficai certos de que iremos rir  custa dele. Convido-vos para almoar amanh em minha casa; depois, iremos caar passarinhos; 
tenho um excelente falco de mato. Combinado?
     FORD - Perfeitamente.
     EVANS - Se houfer um, eu serrei na combanhia o nmberro dois.
     CAIUS - Se houver um ou dois, je ferai le troisime.
     FORD - Vs tambm haveis de ir, mestre Page.
     EVANS - Eu vos beo, tambm, no esquecer amanh aquele biolhento, o estalaxadeiro.
     CAIUS - C'est bon, Pardieu! De todo o corraon.
     EVANS - Suxeito biolhento! Rir e zompar da xente!
     (Saem.)

      
Cena IV
      
Um quarto em cara de Page. Entram Fenton, Ana Page e a senhora Quickly; a senhora Quickly fica  parte.
      
     FENTON - Teu pai no me dar o consentimento; tenho certeza disso. Assim, querida, no me mandes falar-lhe.
     ANA - Que faremos, ento?
     FENTON - Ters de ser o que s, de fato. Ele h de me objetar que eu sou de bero muito elevado e que minhas despesas tendo deixado doente minha bolsa, procuro 
um meio de cur-la, apenas com a fortuna dele. Depois, h de interpor entre ns outras barreiras: minhas dissipaes de outrora e a espcie de sociedade em que eu 
vivi um tempo, para concluir ser coisa mais que certa, que eu s te amo por causa de teu dote.
     ANA - Sendo possvel que ele esteja certo.
     FENTON - No, que me ampare o cu daqui por diante! Embora eu te confesse que a fortuna de teu pai foi a causa primitiva de eu te fazer a corte, ao declarar-me 
convenci-me de que eras mais valiosa do que moedas cunhadas e todo o ouro que em sacos bem selados se conserve. Agora almejo apenas o tesouro que no imo da alma 
encerras.
     ANA - Meu querido mestre Fenton, tratai de obter a boa vontade de meu pai; trabalhai nesse sentido, meu senhor. Porm se acaso falharem vossas splicas humildes 
e as oportunidades... Bem, ouvi-me.
     (Conversam  parte.)
     (Entram Shallow e Slender.)
     SHALLOW - Interrompei a conversa deles, senhora Quickly; meu parente falar por si mesmo.
     SLENDER - Vou soltar uma flecha ou um dardo.  uma questo de sorte.
     SHALLOW - No te mostres atemorizado.
     SLENDER - No; ela no me atemoriza; no receio isso; mas o ruim  que eu sinto medo.
     QUICKLY - Escutai! Mestre Slender quer dizer-vos uma palavrinha.
     ANA - J vou. ( parte.)  a escolha de meu pai. Que mundo de vis defeitos so embelezados por uma renda de trezentas libras!
     QUICKLY - E como vai passando o mestre Fenton? Uma palavra, por obsquio.
     SHALLOW - L vem ela. Vai falar-lhe, primo. Ah, rapaz!... Tiveste um pai...
     SLENDER - Eu tive um pai, senhorita Ana; meu tio poder contar-vos boas pilhrias dele. Tio, por obsquio, contai  senhorita Ana aquela brincadeira de meu 
pai, quando ele roubou dois gansos de um galinheiro. Contai-lhe, meu bom tio.
     SHALLOW - Senhorita Ana, meu primo vos tem amor.
     SLENDER -  verdade; tanto como a qualquer outra mulher de Glostershire.
     SHALLOW - Ele vos sustentar como a uma fidalga.
     SLENDER - Ah! Sem dvida, de qualquer posio, abaixo da de escudeiro.
     SHALLOW - Ele vos deixar uma penso e cento e cinqenta libras.
     ANA - Meu bom mestre Shallow, deixai que ele mesmo se manifeste.
     SHALLOW - Com a breca! Muito obrigado; fico-vos muito agradecido por esse encorajamento de vossa parte. Primo, ela vos chama. Vou deixar-vos.
     ANA - Ento, mestre Slender?
     SLENDER - Ento, senhorita Ana?
     ANA - Qual  a vossa ltima vontade?
     SLENDER - Minha ltima vontade? Caramba! A brincadeira  espirituosa, realmente. Mas eu ainda no fiz o testamento, graas ao cu. No sou criatura achacada, 
graas ao cu.
     ANA - O que eu perguntei, mestre Slender,  o que pretendeis de mim?
     SLENDER - Em verdade, por minha parte, quero muito pouco de vs, ou quase nada. Vosso pai e meu tio puseram-se a trabalhar... Se for meu destino, bem. Caso 
contrrio, quem tiver mais sorte, que fique com o bocado. Eles  que vos podero dizer como as coisas vo; melhor podero dizer como as coisas vo; melhor do que 
eu. Perguntai a vosso pai. A vem ele.
     (Entram Page e a senhora Page.)
     PAGE - Como vai, mestre Slender? Ama-o, filha. Como! Que faz aqui o mestre Fenton? Ofendeis-me, senhor, com to freqentes visitas ao meu lar. Como vos disse, 
minha filha j est comprometida.
     FENTON - No fiqueis, mestre Page, impaciente.
     SENHORA PAGE - Bondoso mestre Fenton, por obsquio, deixai de importunar a minha filha.
     PAGE - No  partido que venhais a obter.
     FENTON - Senhor, quereis ouvir-me?
     PAGE - No, meu caro mestre Fenton. Sigamos, mestre Shallow. Vinde, Slender, tambm. Senhor, sabendo meu modo de pensar, magoais-me muito.
     (Saem Page, Shallow e Slender.)
     QUICKLY - Falai com a senhora Page.
     FENTON - Minha boa senhora Page, amando como amo vossa filha, com a mais nobre das intenes, foroso  que, a despeito de todas as barreiras e recusas, o estandarte 
eu conserve e avance sempre. Ficai, vos peo, do meu lado nisso.
     ANA -  me! No me caseis com aquele tonto!
     SENHORA PAGE - No  minha inteno. Tenho um marido para vs muito bom em perspectiva.
     QUICKLY -  o meu amo, o mestre doutor.
     ANA - Deus me livre! Prefiro que me enterrem viva e a golpes de nabo me liquidem.
     SENHORA PAGE - No vos amofineis. Bom mestre Fenton, amiga no serei, nem inimiga. Vou conversar com minha filha sobre o amor que vos dedica. Assim, de acordo 
com os sentimentos dela heis de encontrar-me. At ento, passai bem; Ana precisa ir para casa; o pai pode zangar-se.
     FENTON - Adeus, gentil senhora; adeus, Aninha.
     (Saem a senhora Page e Ana.)
     QUICKLY - Isso j  resultado do meu trabalho. Disse-lhe: "No; ento ireis entregar vossa filha a um imbecil, a um mdico? Olhai para o mestre Fenton!" Isso 
j  resultado do meu trabalho.
     FENTON - Fico muito obrigado. Agora, peo-te entregar este anel a Aninha,  noite. Fica com isto pelo teu trabalho.
     QUICKLY - O cu te envie uma boa fortuna. (Sai Fenton.) Tem um excelente corao. No h mulher que no se atirasse ao lago e  gua por um corao to amvel. 
No entanto, eu preferira que fosse o meu amo quem viesse a ficar com a senhorita Ana, ou que mestre Slender ficasse com ela, ou mesmo o prprio mestre Fenton. Hei 
de fazer pelos trs o que estiver em mim, porque assim o prometi e quero cumprir minha palavra. Especialmente com relao a mestre Fenton. E agora, preciso levar 
outro recado a sir John Falstaff, da parte de minhas duas senhoras. Que grande besta eu sou, por me ter esquecido disso! (Sai.)

      
Cena V
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram Falstaff e Bardolfo.
      
     FALSTAFF - Bardolfo! Estou chamando.
     BARDOLFO - Aqui, senhor.
     FALSTAFF - Vai buscar-me um quartilho de xerez; pe dentro uma torrada. (Sai Bardolfo.) Ora, ter vivido, para que me carregassem num cesto e me atirassem no 
Tmisa, como restos de aougue! Bem; se eu cair em outra brincadeira como essa, quero que me tirem o crebro, o fritem em manteiga e o dem a um co, como presente 
de ano novo. Os patifes me atiraram no rio com tanta despreocupao como se fossem afogar quinze cachorrinhos recm-nascidos e ainda sem vista. Se o fundo do rio 
estivesse na mesma altura do inferno, eu me teria afogado. Sim, teria morrido afogado, se a margem no fosse to baixa e arenosa. Morte essa que eu abomino, porque 
a gente estufa na gua. E de que jeito eu ficaria, se viesse a estufar? Parecera a mmia de uma montanha.
     (Volta Bardolfo com o xerez.)
     BARDOLFO - A est a senhora Quickly, senhor, que deseja falar-vos.
     FALSTAFF - Vem; deixa-me deitar um pouco de xerez na gua do Tmisa, pois tenho o ventre to frio como se houvesse engolido bolas de neve em vez de plulas, 
para refrescar os rins. Manda-a entrar.
     BARDOLFO - Entrai, mulher.
     (Entra a senhora Quickly.)
     QUICKLY - Com licena. Peo desculpas. Desejo muito bom dia a Vossa Senhoria.
     FALSTAFF - Tira daqui estes clices e traze-me uma boa garrafa de xerez.
     BARDOLFO - Com ovos, senhor?
     FALSTAFF - Simples; no quero saber de gala na bebida. (Sai Bardolfo.) E Ento?
     QUICKLY - Ah, meu caro senhor! Venho procurar Vossa Senhoria da parte da senhora Ford.
     FALSTAFF - Da senhora Ford? J estou farto desse forte;  forte, mas  em gua, que  s o que eu tenho na barriga.
     QUICKLY - Oh, que dia! No foi culpa da coitada! Ela passou uma sarabanda nos criados, por se terem enganado com relao s resolues dela.
     FALSTAFF - Como eu com as minhas, por ter confiado nas promessas de uma tonta.
     QUICKLY - Oh, senhor! Ela lamenta o que aconteceu; se a vsseis, ficareis comovido. O marido dela vai caar passarinhos esta manh. Ela pede que a vades ver 
hoje, entre as oito e as nove. Terei de levar-lhe a resposta com a maior urgncia possvel. Ela vos apresentar desculpas, posso asseverar-vos.
     FALSTAFF - Bem; irei visit-la; podes dizer-lhe isso, e pede-lhe que compreenda o que  um homem. Ela que reflita em sua prpria fragilidade, para depois julgar 
do meu merecimento.
     QUICKLY - Dir-lhe-ei isso mesmo.
     FALSTAFF - Dize-lhe, ento. Entre nove e dez horas, no  assim?
     QUICKLY - Entre oito e nove, senhor.
     FALSTAFF - Bem; podeis ir. No faltarei.
     QUICKLY - Que a paz seja convosco, senhor. (Sai.)
     FALSTAFF - Admira-me no ter ouvido falar novamente em mestre Fontes; mandou-me recado para que o esperasse. Aprecio bastante o dinheiro dele. Mas, ei-lo que 
vem chegando!
     (Entra Ford.)
     FORD - Deus vos abenoe, senhor.
     FALSTAFF - Ento, mestre Fontes? Viestes saber o resultado de minha entrevista com a mulher do Ford?
     FORD -  esse, justamente, sir John, o assunto que me traz at aqui.
     FALSTAFF - Mestre Fontes, no vos faltarei com a verdade. Estive em casa dela na hora aprazada.
     FORD - E como passaste l?
     FALSTAFF - Muito mal, mestre Fontes.
     FORD - Como assim, senhor? Acaso ela mudou de resoluo?
     FALSTAFF - No, mestre Fontes. Mas o cornudo do marido, mestre Fontes, que se acha em estado de alarma permanente de cimes, chegou precisamente no momento 
de nosso encontro, quando j nos tnhamos abraado, beijado, jurado amor eterno e declamado, por assim dizer, o prlogo de nossa comdia. No rasto dele seguia uma 
malta de gente de seu conhecimento, provocados e instigados por sua clera - imaginai s! - para vasculharem a casa em busca do amante da mulher.
     FORD - Como! Quando vos achveis l?
     FALSTAFF - Quando me achava l.
     FORD - E ele, deu busca na casa e no vos encontrou?
     FALSTAFF - J vos direi. Por sorte, chegou a tempo uma tal senhora Page, que contou como Ford se dirigia para casa, e por conselho dela e desespero da mulher 
do Ford me retiraram de l dentro de um cesto de roupa suja.
     FORD - Um cesto de roupa suja!
     FALSTAFF - Por Deus, um cesto de roupa. Atulharam-me com camisas sujas, saias, pegas, meias duvidosas, guardanapos engordurados, o mais ranoso conjunto, mestre 
Fontes, e de fedor insuportvel, que j ofendeu o olfato de qualquer mortal.
     FORD - E quanto tempo ficastes dentro desse cesto?
     FALSTAFF - Oh! Ireis ouvir, mestre Fontes, quanto sofri por vosso bem, para levar essa mulher para o mal. Uma vez comprimido no cesto, a mulher do Ford chamou 
dois biltres, criados do marido, e lhes ordenou que me levassem para o prado de Datchet, como se se tratasse de roupa suja. Mal tinham esses atravessado a porta, 
com o cesto nos ombros, quando entrou o amo, que lhes perguntou uma ou duas vezes o que levavam dentro do cesto. Eu tremia, de medo que o luntico fosse revistar 
o cesto. Mas o destino, por querer que ele se torne, realmente, cornudo, deteve-lhe as mos. Muito bem. Ele entrou, para revistar a casa, enquanto eu saa como roupa 
suja. Mas ouvi o resto, mestre Fontes. Sofri as dores de trs mortes consecutivas: primeiramente, o pavor insuportvel de ser apanhado por aquele carneiro de chocalho, 
podre de cimes; depois, ser dobrado em crculo, como uma lmina de Bilbao, no interior de uma quartilha, o punho junto da ponta, o calcanhar na cabea; e, por ltimo, 
ser arrolhado, como qualquer bebida forte, com roupas fedorentas que fermentavam em sua prpria gordura. Imaginai s, um homem com os meus rins! Imaginai s! to 
sensvel ao calor como manteiga, um homem que se acha em estado de permanente de gelo e fermentao! Foi milagre no ter morrido sufocado. E no grau mais elevado 
desse banho, quando eu j estava meio cozido em gordura, tal qual um prato holands, ser atirado ao Tmisa e esfriado como uma ferradura que estivesse ao rubro! 
Imaginai s, mestre Fontes! Ao rubro! Imaginai s!
     FORD - Com sincero pesar, senhor, sinto terdes sofrido tudo isso pelo intuito de me favorecerdes. Mas vejo que minha causa est perdida. No voltareis a tomar 
a peito a questo?
     FALSTAFF - Mestre Fontes, primeiro me atirara ao Etna, como me jogaram ao Tmisa, antes de deix-la nesse ponto. O marido dessa senhora vai esta manh caar 
passarinhos. Ela me mandou outro recado, para nova entrevista com ela, entre as oito e as nove horas, mestre Fontes.
     FORD - J passa das oito horas, senhor.
     FALSTAFF - J? Ento vou preparar-me para a entrevista. Logo que tiverdes tempo, procurai-me para saber da minha vitria, sendo o coroamento do caso virdes 
a possuir essa pessoa. Adeus. Haveis de possu-la, mestre Fontes! ainda haveis de pr cornos nesse tal Ford. (Sai.)
     FORD - Hum! Ah! Ser viso tudo isso? Ser sonho? Estarei dormindo? Acorda, mestre Ford! Acorda, mestre Ford! O teu melhor casaco est com um furo, mestre Ford. 
Casamento d sempre nisso. Quem tem cestos e roupa suja, passa por tudo isso. Muito bem; eu prprio me incumbirei de proclamar o que sou. Vou pegar esse libertino; 
neste momento ele est em minha casa; no poder escapar;  impossvel; no poder enfiar-se em uma bolsinha de nqueis nem numa caixa de pimenta. Ainda mesmo que 
o auxilie mais uma vez o demnio que o ampara, hei de rebuscar por tudo quanto for buraco. Conquanto eu no possa escapar de ser o que no desejara, nem por isso 
me mostrarei complacente. Se tenho cornos que me deixam louco, passarei a justificar o dito: furioso como um animal de chifre. (Sai.)

      
ATO IV
Cena I
      
Uma rua. Entram a senhora Page, a senhora Quickly e Guilherme.
      
     SENHORA PAGE - Acreditais que ele ainda esteja em casa de mestre Ford?
     QUICKLY - Se ainda no est l, no deve demorar. Mas ficou fulo de raiva por o terem atirado na gua. A senhora Ford deseja que vades j j  casa dela.
     SENHORA PAGE - No me demoro; vou apenas levar  escola este meu homenzinho. Vede, ali vem o professor dele; pelo que vejo, hoje  feriado. (Entra o reverendo 
Hugo Evans.) Ento, reverendo Hugo, hoje no h aula?
     EVANS - No; mestre Slender deu bermisso para os meninos se divertirem.
     QUICKLY - Oh! Que corao bondoso!
     SENHORA PAGE - Reverendo Hugo, meu marido disse que o menino no est aprendendo nada por este livro. Por isso, peo-vos fazer-lhe algumas perguntas pela cartilha 
dele.
     EVANS - Abroxima-te, Guilherme. Vamos; levanta a gabea.
     SENHORA PAGE - Anda logo, maroto. Vamos! Levanta a cabea!
     EVANS - Guilherme, quantos nmberos tem o supstantifo?
     GUILHERME - Dois.
     QUICKLY - Ora essa! Eu sempre pensei que havia mais um, por j ter ouvido falar no nmero mpar.
     EVANS - Bare com esse falatrio. Como  "Ponito" em latim, Guilherme?
     GUILHERME - "Pulcher."
     QUICKLY - Pulga? H muita coisa mais bonita do que pulga.
     EVANS - Esta mulher  pastante simblicidade. Silncio, j disse. Que quer dizer "Lbis", Guilherme?
     GUILHERME - Pedra.
     EVANS - E como  "Uma bedra", Guilherme?
     GUILHERME - Um seixo.
     EVANS - Non;  "Labis"; guarda pem isso na gabea.
     GUILHERME - "Lpis."
     EVANS - Muito pem, Guilherme. E agora, Guilherme, de onde se tiram os artigos?
     GUILHERME - Os artigos so derivados do pronome e se declinam por este modo: singulariter nominativo: hic, haec, hoc.
     EVANS - Nominativo hig, hag, hog, bresta atenon; genitivo, hujus. Muito pem. E como  o caso agusativo?
     GUILHERME - Acusativo, hinc.
     EVANS - Olha l, pequeno! Toma guidado. Agusativo hung, hang, hog.
     QUICKLY - Hang hog deve ser lngua de porco, posso assegurar-vos.
     EVANS - Bare com esse balavrrio, mulher. Qual  o caso focativo, Guilherme?
     GUILHERME - ! Vocativo, !
     EVANS - Lempra-te pem, Guilherme, Focativo, caret
     QUICKLY -  isso mesmo; est tudo muito caro.
     EVANS -  mulher falateira! Silncio!
     SENHORA PAGE - Paz!
     EVANS - Qual  o vosso caso genitifo plural, Guilherme?
     GUILHERME - O caso genitivo?
     EVANS - Sim.
     GUILHERME - Genitivo horum, harum, horum.
     QUICKLY - Se a Jeni Diva fez isso, menino, se roubou mesmo um arco de ouro, ser bom no conversares com ela.
     EVANS -  mulher! Crie xuzo!
     QUICKLY - Fazeis mal em ensinar essas coisas ao menino, mandando que ele risque e enrosque por a tudo, o que as crianas j fazem sem serem mandadas, e que 
falar com a tal Jeni Diva. Ora, senhor!
     EVANS -  mulher! Sers acaso luntica? No tens inteligncia bara compreender os gasos e os nmeros e os gneros? s a mais louca griatura grist que eu poderia 
desexar.
     SENHORA PAGE - Fica quieta, por obsquio.
     EVANS - E agora, Guilherme, dize a deglinaon dos pronomes.
     GUILHERME - Em verdade, no me lembro.
     EVANS -  qui, quae, quod. Se esquecerdes vossos Quis, vossos Quaes e vossos quods, levareis umas jibatadas. Gontinuai vosso gaminho e ide princar.
     SENHORA PAGE - Ele sabe mais coisas do que eu podia imaginar.
     EVANS - Tem uma memria muito poa. Passai pem, senhora Page.
     SENHORA PAGE - Adeus, meu bom reverendo Hugo. (Sai o reverendo Hugo.) Vai para casa, pequeno. Vamos indo, j perdemos muito tempo.
     (Saem.)

      
Cena II
      
Um quarto em casa de Ford. Entram Falstaff e a senhora Ford.
      
     FALSTAFF - Senhora Ford, vossa tristeza devorou meu sofrimento. Vejo que sois obsequiosa em vosso amor, e vos prometo retribu-lo sem a diferena mnima de 
um fio de cabelo, e isso, senhora Ford, no somente no simples ofcio do amor, mas em todos os seus ornamentos, complementos e cerimnias. Mas tendes certeza, mesmo, 
de que vosso marido ficar hoje fora de casa?
     SENHORA FORD - Ele foi caar passarinhos, meu caro Sir John.
     SENHORA PAGE (dentro) - Ol, comadre Ford! Ol!
     SENHORA FORD - Entrai para este quarto, sir John.
     (Sai Falstaff Entra a senhora Page.)
     SENHORA PAGE - Ento, meu corao? Quem se acha aqui, alm de vs?
     SENHORA FORD - Ora, afora os criados, ningum.
     SENHORA PAGE -  verdade?
     SENHORA FORD - Verdade. ( parte.) Fala mais alto.
     SENHORA PAGE - Pois sinceramente, alegra-me saber que no h nenhuma pessoa estranha em vossa casa.
     SENHORA FORD - Por qu?
     SENHORA PAGE - Ora, mulher, vosso marido est outra vez com as suas luas velhas: discute com o meu marido, injuria todas as pessoas casadas, amaldioa todas 
as filhas de Eva, de qualquer cor que elas sejam, e aplica na prpria testa tamanhos socos, gritando: Aparecei logo! Aparecei logo! com tanta violncia, que os casos 
de loucura que eu j vi no passam de brandura, civilidade e pacincia junto do destempero em que ele se encontra. Alegro-me por no estar aqui o cavaleiro gordo.
     SENHORA FORD - Como!  a respeito do cavaleiro que ele fala?
     SENHORA PAGE - De ningum mais, seno dele somente, jurando que ele foi retirado daqui dentro de um cesto, quando ele deu busca na casa. Assevera a meu marido 
que neste momento ele se encontra de novo aqui, tendo-o demovido, e aos demais companheiros, da idia da caada, para virem fazer outra experincia com relao s 
suas suspeitas. Assim sendo, fico satisfeita por no estar aqui o cavaleiro gordo, pois desse modo ele se convencer de sua prpria loucura.
     SENHORA FORD - E ele j vem perto, senhora Page?
     SENHORA PAGE - Encontra-se a dois passos, ali no fim da rua; no demora, chegar aqui.
     SENHORA FORD - Nesse caso, estou perdida! O cavaleiro est aqui.
     SENHORA PAGE - Nesse caso, estais desonrada de todo e ele no passa de um homem morto. Que mulher sois! Mandai-o embora! Mandai-o embora!  prefervel a vergonha 
ao crime.
     SENHORA FORD - Mand-lo embora por onde? De que modo disfar-lo? P-lo-ei novamente dentro do cesto?
     (Volta Falstaff.)
     FALSTAFF - No; no entrarei outra vez no cesto. No me seria possvel sair antes da chegada dele?
     SENHORA PAGE - Ah! Esto de guarda na porta trs irmos de mestre Ford, armados de pistola, para que ningum possa sair. No fora isso, podereis sair antes 
da vinda dele. Mas, que fazeis aqui?
     FALSTAFF - Que fazer? Vou enfiar-me no cano da chamin.
     SENHORA FORD - No;  a que eles costumam descarregar as espingardas de caa.
     SENHORA PAGE - Entrai na boca do forno.
     FALSTAFF - Onde fica o forno?
     SENHORA FORD - No; ele h de procurar ali tambm, tenho certeza. No h armrio, cofre, mala, prateleira, fonte, celeiro, de que ele no conserve de memria 
a lista, para revist-los por ordem. Aqui em casa no h lugar em que seja possvel esconder-vos.
     FALSTAFF - Nesse caso, terei de sair.
     SENHORA PAGE - Se sairdes com vossa aparncia natural, sir John, sereis um homem morto. A menos que vos disfarsseis...
     SENHORA FORD - De que jeito?
     SENHORA PAGE - Ai de mim! No sei diz-lo. No temos nenhum vestido que lhe sirva; seno, ele poderia pr um chapu, a mantilha e um leno, para, desse jeito, 
escapar.
     FALSTAFF - Meus coraes, inventai qualquer recurso. Tudo, menos uma desgraa.
     SENHORA FORD - A tia da minha empregada, aquela mulher gorda de Brainford, deixou l em cima um vestido.
     SENHORA PAGE - Sob minha palavra, servir nele; ela  to gorda quanto ele... Deixou tambm o chapu grosso de l e a mantilha. Ide l para cima, sir John.
     SENHORA FORD - Ide, ide, meu caro sir John! A senhora Page e eu vos arranjaremos algum pano para a cabea.
     SENHORA PAGE - Depressa! Depressa! Subiremos neste momento, para vos prepararmos. Enquanto isso, ide pondo o vestido.
     (Sai Falstaff.)
     SENHORA FORD - Quisera que meu marido o achasse sob esse disfarce; ele no suporta a velha de Brainford; est convencido de que  feiticeira, tendo-a proibido 
de entrar aqui, sob ameaa de bater-lhe.
     SENHORA PAGE - Que o cu o ponha ao alcance do cacete de teu marido e o diabo dirija depois as marretadas.
     SENHORA FORD - Mas meu marido vem mesmo para casa?
     SENHORA PAGE - Vem; estou falando srio. E mais: refere-se ao cesto, de que ele veio a saber no sei por que maneira.
     SENHORA FORD -  o que ficaremos sabendo dentro de pouco. Vou dizer aos criados que carreguem novamente o cesto, para cruzarem com ele, na porta, como da outra 
vez.
     SENHORA PAGE - Certo. Mas ele est a chegar. Vamos logo vestir o cavaleiro com a roupa da bruxa de Brainford.
     SENHORA FORD - Antes disso vou instruir os criados acerca do que tero de fazer com o cesto. Vai para cima, que eu j levo o pano para o cavaleiro. (Sai.)
     SENHORA PAGE - A forca para esse tipo desonesto. Nunca ser excessivo o que fizermos com ele. Ao mundo vai mostrar nossa conduta que temos gnio alegre e honra 
impoluta. No h mal em brincar. Diz o ditado: o porco que mais come  o mais calado.
     (Sai. Volta a senhora Ford, com dois criados.)
     SENHORA FORD - Vamos, senhores; ponde o cesto no ombro. O patro est a chegar; se ele vos mandar descer o cesto obedecei-lhe. Depressa! Despachai-vos! (Sai.)
     PRIMEIRO CRIADO - Vamos logo; pega desse lado.
     SEGUNDO CRIADO - Praza ao cu que no esteja outra vez cheio do cavaleiro.
     PRIMEIRO CRIADO - Espero que no; preferira carregar chumbo.
     (Entram Ford, Page, Shallow, Caius e o reverendo Hugo Evans.)
     FORD - Sim, mas se ficar provado, mestre Page, de que modo vos justificareis por me terdes chamado de louco? - Ponde esse cesto a no cho, velhacos! V algum 
chamar minha mulher. - Jovem do cesto!  velhacos condescendentes! H uma conjura, um bando, uma quadrilha, uma conspirao contra mim. Mas agora o diabo vai ficar 
confundido. Estou chamando! Vinde logo! Vinde ver que roupas honestas mandais para a lavadeira!
     PAGE - Mestre Ford, a brincadeira j est passando dos limites. No devereis continuar solto; ser preciso que vos amarremos.
     EVANS - Ora, lougura  assim mesmo; ele est to lougo como cachorro lougo.
     SHALLOW - Realmente, mestre Ford, no fica bem. Realmente.
     FORD -  tambm o que eu digo, senhor. (Volta a senhora Ford.) Vinde c, senhora Ford, mulher honesta, esposa modesta, criatura virtuosa, que tem por marido 
um louco ciumento. Minhas suspeitas so infundadas, no  assim, minha senhora?
     SENHORA FORD - Tomo o cu como testemunha em como  assim, no caso de suspeitardes de alguma desonestidade de minha parte.
     FORD - Muito bem, sua cara deslavada. Prossegui. Vinde para fora, velhaco! (Tira algumas peas de dentro do cesto.)
     PAGE - Isso  demais!
     SENHORA FORD - No vos envergonhais? Deixai essas roupas.
     FORD - Vou apanhar-te neste momento.
     EVANS - Isso  fora de brobsito; querreis expor a roupa de vossa esposa? Deixai disso!
     FORD - Esvaziai o cesto, estou mandando!
     SENHORA FORD - Por qu, homem? Por qu?
     FORD - Mestre Page, to certo como eu ser um homem honesto, anteontem foi retirado algum daqui de casa dentro deste cesto. Por que no poder esse algum estar 
de novo a dentro? Tenho certeza de que essa pessoa se acha aqui em casa; recebi informaes seguras. Minhas suspeitas tm fundamento. Vamos; retirai logo toda a 
roupa!
     SENHORA FORD - Se encontrardes a dentro algum homem, que ele venha a morrer como uma pulga.
     PAGE - No h ningum aqui dentro.
     SHALLOW - Por minha palavra de cavaleiro, isso no fica bem, mestre Ford; isso no vos orna.
     EVANS -  breciso, mestre Ford, rezar, sem vos deixardes dominar pelas fantasias do goraom. Isso  xime.
     FORD - Bem; confesso que no est dentro do cesto a pessoa que eu procuro.
     PAGE - Nem em parte alguma, a no ser em vosso crebro.
     (Os criados saem com o cesto.)
     FORD - Ajudai-me mais esta vez a revistar a casa. Se no encontrarmos o que eu procuro, podereis carregar nas tintas da censura  minha extravagncia, fazendo 
de mim alvo permanente de vossas assuadas. Que de futuro venham a dizer a meu respeito: "To ciumento como Ford que procurava numa noz vazia o amante da mulher". 
Fazei-me a vontade ainda por esta vez, ajudando-me a revistar a casa.
     SENHORA FORD - Ol, senhora Page! Vinde c para baixo e trazei velha! Meu marido vai entrar nesse quarto.
     FORD - Velha! Que velha  essa?
     SENHORA FORD - Ora! A tia da minha empregada, a velha de Brainford
     FORD - Uma bruxa, uma rameira, uma rameira intrigante  o que ela . No a proibi de entrar aqui em casa? Foi portadora de algum recado no  assim? Somos ingnuos; 
no percebemos o que se faz sob pretexto de tirar a buenadicha; ela opera por meio de feitios, encantamentos, horscopos e outras baboseiras que tais, que ultrapassam 
de muito nosso horizonte. No sabemos nada. - Desce, bruxa! Desce, carcaa! Desce logo!
     SENHORA FORD - Oh, meu querido maridinho! Caros senhores, no deixeis que ele d na pobre velha.
     (Entra Falstaff, vestido de mulher, conduzido pela senhora Page.)
     SENHORA PAGE - Por aqui, tia Prat; por aqui. Dai-me a mo.
     FORD - "Prato"  isto! Eu j te preparo o prato. (Batendo em Falstaff) Fora daqui, megera, cigana, feiticeira, fuinha, monte de banha. Vou conjurar-vos! Vou 
tirar-vos a sorte.
     (Sai Falstaff)
     SENHORA PAGE - No vos envergonhais? Penso que matastes a pobre mulher.
     SENHORA FORD -  o que ele ainda acabar por fazer; ser uma faanha gloriosa.
     FORD - Essa bruxa que se enforque.
     EVANS - Belo sim e belo non, eu benso que a velha  mesmo pruxa. No abrecio mulher de barba; por paixo da mantilha eu vi uma barba grande.
     FORD - No quereis vir comigo, cavalheiros? Vinde, por obsquio; vinde ver como terminam minhas suspeitas. Se eu latir sem ter dado na pista certa, no acrediteis, 
quando eu tornar a abrir a boca.
     PAGE - Condescendamos mais uma vez com o capricho dele. Vinde, cavalheiros.
     (Saem Ford, Page, Shallow, Caius e Evans.)
     SENHORA PAGE - Podeis crer-me, ele lhe deu uma tunda de causar piedade.
     SENHORA FORD - No, pela missa! No foi assim; penso que lhe bateu sem piedade.
     SENHORA PAGE - Vou santificar o relho e coloc-lo sobre o altar; realizou um servio meritrio.
     SENHORA FORD - Que vos parece? Sem deixarmos de ser mulheres honestas e de conscincia limpa, ainda poderemos prosseguir na execuo de nossa vingana?
     SENHORA PAGE - Certamente o demnio da luxria j o abandonou. Se ele no se tornou propriedade pura e simples do diabo, com todas as clusulas do contrato, 
penso que nunca mais ter vontade de nos tentar.
     SENHORA FORD - Conviria contar a nossos maridos a maneira por que o tratamos?
     SENHORA PAGE - Sem dvida, quando nada, para tirar essas caraminholas da cabea do vosso esposo. E se eles decidirem de corao que o pobre cavaleiro enxundioso 
e devasso merece novos castigos, poderemos ajud-los nesse mister.
     SENHORA FORD - Posso asseverar que eles ho de querer confundi-lo de pblico. Penso, mesmo, que a brincadeira no ficaria completa, se ele no recebesse um 
castigo nessas condies.
     SENHORA PAGE - Vamos, ento, com o plano para a forja; convm bater, antes que esfrie.
     (Saem.)

      
Cena III
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram o estalajadeiro e Bardolfo.
      
     BARDOLFO - Senhor, os alemes desejam trs dos vossos cavalos; o duque vir amanh  corte, e eles querem ir ao seu encontro.
     ESTALAJADEIRO - Que duque ser esse que vem por maneira to misteriosa? Desejo conversar com esses cavalheiros. Eles falam ingls?
     BARDOLFO - Sim, senhor. Vou cham-los.
     ESTALAJADEIRO - Obtero os cavalos, mas ser preciso pagar. Vou salg-los. Dispuseram  vontade de minha casa durante uma semana; deixei de receber os fregueses 
de costume.  preciso que paguem. Vou salg-los. Vejamos!

      
Cena IV
      
Um quarto em casa de Ford. Entram Page, Ford, a senhora Page, a senhora Ford e o reverendo Hugo Evans.
      
     EVANS -  a mais pla idia de mulher de que eu x tive conhecimento.
     PAGE - E ele vos enviou as duas cartas na mesma ocasio?
     SENHORA PAGE - Com diferena de um quarto de hora.
     FORD - Perdoa-me, querida. Doravante fars o que quiseres. Primeiro hei de atribuir frieza ao sol, que suspeitar-te da menor leviandade. Teu conceito lana 
agora razes neste hertico, como a mais firme f.
     PAGE - Bem; mas fiquemos por aqui mesmo. Nada de exageros; se na ofensa houve excesso, que no haja na submisso. Mas levemos adiante nosso plano. Porque o 
divertimento seja pblico, mais uma vez nossas mulheres ho de combinar com esse velho barrigudo nova entrevista, onde nos seja fcil apanh-lo e aplicar-lhe um 
bom castigo.
     FORD - No h melhor alvitre do que o delas.
     PAGE - Qual! Mandar-lhe recado para ir encontrar-se com elas no parque,  meia-noite? Isso ele no far. De jeito nenhum.
     EVANS - Dixestes que ele foi xogado na gua e foi patido sem piedade, quando estava disfarado de velha. Sou de obinio que ele deve extar cheio de terrores 
e de medo e que no ir l. Sou de obinio que uma vez castigada a carne, ele ficar liperto dos maus desexos.
     PAGE -  tambm o que eu penso.
     SENHORA FORD - Pensai apenas no que fareis todos, quando ele aparecer, que hei de achar jeito de lev-lo at l.
     SENHORA PAGE - Um velho conto diz que Herne, o caador, guarda campestre h muito tempo da floresta de Windsor, Quando nos chega o inverno,  meia-noite anda 
ao redor do tronco de um carvalho, com chifres na cabea, estraga as rvores, pe feitio no gado, muda em sangue todo o leite das vacas e sacode por modo pavoroso 
uma corrente. Falar j ouvistes sobre esse fantasma, como sabeis que nossos velhos crdulos e de cabea fraca nos repetem como verdade certa o que souberam das outras 
geraes, sobre a figura de Herne, o guarda campestre.
     PAGE -  certo; e muita gente tem medo de passar  noite pelo carvalho de Herne. Bem; e o resto?
     SENHORA FORD - Nosso plano  o seguinte: marcaremos encontro no carvalho com Falstaff, que como Herne l ir, com grandes chifres.
     PAGE - Bem; admitamos que ele comparea  entrevista sob essa mesma forma. Que fareis dele, aps? Que planejastes?
     SENHORA PAGE - J est tudo assentado. E deste jeito: minha filha Ana Page, meu filhinho com mais algumas crianas de igual porte sero por ns vestidos como 
fadas, elfos e anes, com roupa verde e branca, com grinaldas e tochas na cabea e chocalhos nas mos. Subitamente, quando eu e ela a Falstaff nos reunirmos, de 
uma cova de serra que h ali perto saltaro todos, a cantar alguma cantilena confusa. A vista deles, ns duas fugiremos assustadas. Eles, ento, o cercaro depressa, 
passando a beliscar nosso impudico cavaleiro, tal como veros duendes, perguntando-lhe a causa de, nessa hora de diverso das fadas, haver ele tido a ousadia de pisar 
o solo sagrado sob disfarce to profano.
     SENHORA FORD - E enquanto ele no diz toda a verdade, que os supostos duendes o belisquem insistentes, queimando-o com seus fachos.
     SENHORA PAGE - Conhecida a verdade, aparecemos, tiramos do fantasma os grandes chifres e at Windsor faremos troa dele.
     FORD -  preciso ensaiar bem as crianas, por que levado a cabo seja o plano.
     EVANS - Eu me ingumbo de ensaiar as grianas e eu mesmo irei disfarado de magago, para queimar o gavaleiro com minha tocha.
     FORD - tima idia! Vou tratar de comprar logo as mscaras.
     SENHORA PAGE - A rainha das fadas ser Aninha; vestido branco lhe darei bem caro.
     PAGE - Vou comprar logo a seda. ( parte.) Nesse em meio, raptar mestre Slender minha filha, para com ela se casar em ton. - Mandemos a Falstaff o aviso logo.
     FORD - Vou procur-lo novamente, em nome de mestre Fontes. H de revelar-me todos os seus projetos. Ficai certos de que no faltar.
     SENHORA PAGE - No tenhais medo. Ide logo comprar os apetrechos e as roupas para os duendes.
     EVANS - No pergamos tempo.  um prazer admirvel e muito honesta felhacaria.
     (Saem Page, Ford e Evans.)
     SENHORA PAGE - Senhora Ford, depressa, mandai Quickly a sir John; precisamos saber o que ele pensa. (Sai a senhora Ford.) Irei  casa do doutor, pois lhe dei 
minha palavra de que ele h de esposar Aninha Page. Esse Slender, conquanto afazendado, no passa de um idiota. A preferncia meu marido lhe d. Muito dinheiro tem 
o doutor e amigos influentes. Ele  que h de casar com minha filha, ainda que noivos vinte mil, agora, me jurassem faz-la alta senhora. (Sai.)

      
Cena V
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram o estalajadeiro e Simples.
      
     ESTALAJADEIRO - Que desejas, labrego? Vamos, casca grossa! Fala, respira, discute; depressa, curto, pronto, rpido!
     SIMPLES - Ora, senhor, eu vim para falar com sir John Falstaff da parte de mestre Slender.
     ESTALAJADEIRO -  aquele o quarto dele, a manso, o castelo, seu leito fixo e cama de campanha. Est decorado com a histria do filho prdigo, pintadinho de 
novo e ainda fresco. Vai; bate e chama, que ele te responder como um antropofaginico. Bate, estou mandando!
     SIMPLES - Uma mulher, uma velha gorda subiu para esse quarto. Terei a ousadia, senhor, de esperar at que ela desa.
     ESTALAJADEIRO - Como! Uma mulher gorda? O cavaleiro poder ser roubado. Vou cham-lo. Cavaleiro mata-mouros! Sir John, corao de ferro! Responde com esses 
pulmes militares: ests ai? Quem est falando e o teu estalajadeiro o elesiano!
     FALSTAFF (de cima) - Ento, estalajadeiro?
     ESTALAJADEIRO - Est aqui um trtaro boemiano  espera de que desa a tua mulher gorda. Manda-a c para baixo, trinca-ferros; manda-a para baixo! Meus quartos 
so respeitveis. Que  isso? Segredinhos? Que  isso?
     (Entra Falstaff)
     FALSTAFF - Realmente, meu estalajadeiro, tive a visita de uma mulher gorda; mas j foi embora.
     SIMPLES - Por obsquio, senhor, no era a mulher sbia de Brainford?
     FALSTAFF - Justamente, casca de mexilho. Que querias com ela?
     SIMPLES - Meu amo, senhor, mestre Slender, tendo-a visto passar na rua, mandou que lhe falasse, para saber, senhor, se um tal Nym, senhor, que lhe escamoteou 
uma cadeia, est com a cadeia ou no.
     FALSTAFF - Conversei com a velha a esse respeito.
     SIMPLES - E que foi que ela disse, senhor, por obsquio?
     FALSTAFF - Ora, disse que o mesmo indivduo que escamoteou a cadeia de mestre Slender, empalmou-a belamente.
     SIMPLES - Quisera ter falado pessoalmente com essa mulher; tinha outras coisas a perguntar-lhe da parte dele.
     FALSTAFF - Que coisas? Dize logo.
     ESTALAJADEIRO - Isso mesmo. Vamos logo!
     SIMPLES - No posso ocult-las, senhor.
     ESTALAJADEIRO - Oculta-as logo, se no morrers!
     SIMPLES - Ora, senhor, no era nada; era s a respeito da senhorita Ana Page, para saber se  sorte dele ou no vir a casar com ela.
     FALSTAFF - Sim,  essa, justamente, a sorte dele.
     SIMPLES - Qual, senhor?
     FALSTAFF - Vir a casar com ela ou no. Vai; dize-lhe que a mulher me contou isso mesmo.
     SIMPLES - Poderei ter a liberdade de lhe dizer isso, senhor?
     FALSTAFF - Pois no, sir Tike; a liberdade que quiseres.
     SIMPLES - Agradeo a Vossa Senhoria; meu amo vai ficar muito contente com essas notcias. (Sai.)
     ESTALAJADEIRO - s um sbio, sir John; s um sbio. Recebeste a visita dessa mulher?
     FALSTAFF - Recebi, meu estalajadeiro;  uma mulher que me ensinou mais coisas do que eu poderia ter aprendido em toda a minha vida, e isso sem que eu lhe pagasse 
nada; pelo contrrio, fui pago para aprender.
     (Entra Bardolfo.)
     BARDOLFO - Ah, senhor! Ah, senhor! Pura velhacaria! Pura velhacaria!
     ESTALAJADEIRO - Onde esto os cavalos? Responde, varletto.
     BARDOLFO - Os velhacos os levaram. Quando estvamos um pouco adiante de Eton, empurraram-me para um atoleiro e depois calcaram as esporas, como o fariam trs 
demnios alemes com trs doutores Faustos.
     ESTALAJADEIRO - Eles s foram ao encontro do duque, maroto; no digas que fugiram; os alemes so gente honesta.
     (Entra o reverendo Hugo Evans.)
     EVANS - Onde ext o meu estalaxadeiro?
     ESTALAJADEIRO - Que  que h, senhor?
     EVANS - Tende guidado com os hspedes novos. Contou-me um amigo que veio da cidade que trs primos xermanos rouparam gavalos e polsas de todos os viaxantes 
de Reading, Maidenhead e Colebrook. Digo isso para o vosso pem, ora vede; sois esbirituoso e gostais muito de princadeiras, e no seria gonveniente serdes ludipriado. 
Adeus. (Sai)
     (Entra o doutor Caius.)
     CAIUS - Onde est mon hte de la Jarretire?
     ESTALAJADEIRO - Aqui, mestre doutor; perplexo e num dilema duvidoso.
     CAIUS - No sei o que se passa; mais on m'a dit que estais fazendo grandes preparrativos para hospedar um duque de Jamany. Mas, por minha f, ma foi, na corte 
no se tem notcia de nenhum duque que esteja para chegar. Digo isso pour vtre bien. (Sai.)
     ESTALAJADEIRO - Vai dar o alarma, vilo. Corre! Ajudai-me, cavaleiro. Estou perdido. Corre, voa, vai dar o alarma, vilo! Estou perdido.
     (Saem o estalajadeiro e Bardolfo.)
     FALSTAFF - Desejara que todo o mundo fosse logrado, porque eu o fui e, ainda por cima, espancado. Se na corte viessem a saber de que modo eu fui metamorfoseado 
e como minha transformao foi lavada e surrada, far-me-iam perder toda esta gordura, derretendo-a gota por gota, e engraxariam com ela botas de pescadores.  certeza 
que me zurziriam com ditos mordazes, at me deixarem de crista cada como uma pera seca. A sorte me abandonou, desde que jurei falso no jogo de Primero. Bem; se 
ainda me sobrar flego que d para dizer minhas oraes, prometo arrepender-me. (Entra a senhora Quickly.) Ol! De onde vindes?
     QUICKLY - Por minha alma, venho da parte de ambas.
     FALSTAFF - Que o diabo fique com uma delas e a av dele com a outra. Desse modo as duas ficaro em boas mos. Tenho sofrido mais por causa delas do que poderia 
suportar a miservel inconstncia da resistncia humana.
     QUICKLY - E elas, tambm, nada sofreram? Sim, posso asseverar-vos. Principalmente a senhora Ford, coitadinha, que de tanto apanhar ficou azul e preta, a tal 
ponto que no podereis encontrar um s lugar branco em todo o seu corpo.
     FALSTAFF - Por que me falas de azul e preto? Eu apanhei em todas as cores do arco-ris, e estive a ponto de ser preso como se fosse a feiticeira de Brainford. 
O que me livrou foi a minha admirvel presena de esprito; no fora isso, e o velhaco do oficial de justia me teria posto no cepo, num cepo vulgar, por feiticeiro.
     QUICKLY - Senhor, permiti que vos fale em vosso quarto. Ficareis sabendo em que p as coisas esto, podendo assegurar-vos que vos dareis por satisfeito. Aqui 
est uma carta que j vos dir alguma coisa. Coitadinhos! Quanto trabalho para se reunirem!  certeza: um dos dois serve mal ao cu, para sair tudo assim arrevezado.
     FALSTAFF - Sobe at ao meu quarto.
     (Saem.)

      
Cena VI
      
Outro quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram Fenton e o estalajadeiro.
      
     ESTALAJADEIRO - No faleis comigo, mestre Fenton; estou desanimado e disposto a abandonar tudo.
     FENTON - Entanto, ouvi-me. Vinde em meu auxlio, e  f de gentil-homem, recompenso-vos com mil libras a mais do que perdestes.
     ESTALAJADEIRO - Vou ouvir-vos, mestre Fenton. Quando nada, saberei guardar segredo.
     FENTON - Mais de uma vez j vos falei de tudo que sinto pela bela Aninha Page, que corresponde ao meu sincero afeto - tanto quanto depende dela prpria - como 
eu desejaria. Esta missiva que ela me enviou vos deixar pasmado. Liga-se de tal modo o meu assunto com a brincadeira de que aqui se trata, que impossvel ser falar 
de um caso, sem revelar-vos o outro, O gordanchudo Falstaff em tudo tem papel saliente. Por aqui ficareis sabendo de outras particularidades. (Mostra-lhe a carta.) 
Ora ouvi-me, meu estalajadeiro. No carvalho de Herne, entre a meia-noite de hoje e uma hora, vai a minha doce Ana apresentar-se qual rainha das fadas. Enquanto outros 
levam adiante a brincadeira em curso, deve ela, assim vestida e por mandado do prprio pai, fugir com mestre Slender e, sem demora, com ele dirigir-se a ton e l 
casarem. Concordou. Ora, senhor, a me dela, que sempre foi contrria a esse enlace e refora o doutor Caius em suas pretenses, pretende que este fuja tambm com 
ela, enquanto os outros convidados distrados estiverem na mascarada. O deo, para isso, fica prestes em casa, a fim de despos-los. Fingindo concordar com todo 
o enredo da me, ela ao doutor deu a palavra. Esto agora neste ponto as coisas: quer o pai que de branco ela se vista, para que Slender, na ocasio propcia, possa 
diferenci-la, a mo lhe pegue e lhe diga que o siga. Ao mesmo tempo a me, porque o doutor a reconhea - pois todos devero estar de mscaras e fantasiados - quer 
que seja verde seu vestido flutuante e mui garrido, e que fitas lhe caiam da cabea, devendo, ento, a mo o doutor Caius beliscar-lhe no instante mais azado. A 
esse sinal, consente ela em segui-lo.
     ESTALAJADEIRO - E a quem pretende ela enganar, o pai ou a me?
     FENTON - A ambos, meu caro, e a se evadir comigo. E agora, o principal: s falta obterdes que o proco na igreja nos espere entre doze horas e uma, a fim de 
unir-nos os coraes com as cerimnias todas de um enlace legal e sacrossanto.
     ESTALAJADEIRO - Ponde em execuo o vosso plano. Vou procurar o proco. Se a noiva conseguirdes levar, achareis padre.
     FENTON - Ser-te-ei reconhecido para sempre, alm de dar-te logo um bom presente.
     (Saem.)

      
ATO V
Cena I
      
Um quarto na hospedaria da Jarreteira. Entram Falstaff e a senhora Quickly.
      
     FALSTAFF - Por obsquio, pra com essa tagarelice. Vai! Estou pelo que prometi. Ser a terceira vez. Confio na sorte dos nmeros mpares. Vai logo. Dizem que 
os nmeros mpares so dotados de algo divino, ou por ocasio do nascimento, ou durante a vida, ou na hora da morte.
     QUICKLY - Vou arranjar-vos uma corrente e farei todo o possvel para obter um par de chifres.
     FALSTAFF - Vai logo, estou mandando. O tempo corre. Levanta a cabea e trota miudinho. (Sai a senhora Quickly. Entra Ford.) Ento, mestre Fontes? Mestre Fontes, 
o negcio ser concludo hoje  noite, ou nunca mais. Ide postar-vos  meia-noite no parque, junto do carvalho de Herne, que haveis de ver coisas mirficas.
     FORD - No estivestes ontem em casa dela, senhor, conforme me dissestes que ficara combinado?
     FALSTAFF - Fui  casa dela, mestre Fontes, tal como me vedes: como um velho; mas voltei de l, mestre Fontes, como uma pobre velha. Aquele celerado maldito, 
Ford, o marido dela, est tomado pelo mais astucioso demnio do cime, mestre Fontes, que em qualquer tempo haja dominado um frentico. Imaginai s! Ele me espancou 
sem piedade, estando eu disfarado de mulher; porque sob a aparncia de homem, mestre Fontes, no tenho medo de nenhum Golias com sua acha de Tecelo, por saber 
que a vida no  mais do que uma lanadeira. Estou com pressa; vinde comigo; vou contar-vos tudo, mestre Fontes. Desde o tempo em que eu depenava gansos, gazeava 
aula e jogava pio, no sabia o que fosse apanhar; mas soube-o agora. Vinde comigo; vou contar-vos coisas muito interessantes a respeito desse biltre, o Ford. Mas 
pretendo vingar-me ainda esta noite e entregar-vos em mos a mulher dele. Estranhos acontecimentos esto em perspectiva, mestre Fontes. Vinde comigo.
     (Saem.)

      
Cena II
      
O parque de Windsor. Entram Page, Shallow e Slender.
      
     PAGE - Vinde, vinde; ficaremos no fosso do castelo at vermos as luzes das nossas fadas. Filho Slender, no vos esqueais de minha filha.
     SLENDER - Oh! sem dvida! J lhe falei e combinamos uma senha para nos reconhecermos. Aproximo-me da fada de branco e digo-lhe: "Zs!" ao que ela me responder: 
"Trs!" E assim nos identificaremos.
     SHALLOW - Est tudo muito bem. Mas qual  a utilidade desse "Zs" e do outro "Trs", se a cor branca j a identifica suficientemente? J bateram dez horas.
     PAGE - A noite est bem escura, muito prpria para luzes e aparies. Que o cu proteja nossa brincadeira. Ningum cogita de praticar o mal, a no ser o prprio 
demnio, que ser reconhecido pelos chifres. Vamos; acompanhai-me.
     (Saem.)

      
Cena III
      
Uma rua de Windsor. Entram a senhora Page, a senhora Ford e o doutor Caius.
      
     SENHORA PAGE - Mestre doutor, minha filha est vestida de verde. Quando virdes que  a ocasio oportuna, tomai-a pela mo, conduzi-a  casa do deo e ponde 
pressa na cerimnia. Ide para o parque em nossa frente; ns duas deveremos entrar juntas.
     CAIUS - Sei bem o que terei de fazer. Adieu.
     SENHORA PAGE - Passai bem, senhor. (Sai o doutor Caius.) Meu marido vai ficar menos alegre com o castigo de Falstaff do que com o casamento de minha filha com 
o doutor. Mais pouco importa. Mais vale uma pequena repreenso do que um mundo de aborrecimentos.
     SENHORA FORD - Onde est Aninha com seu squito de fadas e o diabo galense, Hugo?
     SENHORA PAGE - Esto todos deitados num fosso que fica junto do carvalho de Herne, com as luzes encobertas, que faro brilhar na escurido logo que ns e Falstaff 
nos encontrarmos.
     SENHORA FORD - Ele no pode deixar de assustar-se.
     SENHORA PAGE - Se no ficar assustado, ser escarnecido, e se ficar assustado, tanto melhor, ser escarnecido da mesma forma.
     SENHORA FORD - Vamos tra-lo belamente.
     SENHORA PAGE - Para um negcio assim, que  s maldade, qualquer traio ainda  honestidade.
     SENHORA FORD - Est na hora. Para o carvalho! Para o carvalho!
     (Saem.)

      
Cena IV
      
O parque de Windsor. Entra o reverendo Hugo, disfarado, com as Fadas.
      
     EVANS - Defagar, defagar, fadas! No vos esqueais de vossos papis. Tende coraxem,  s o que peo. Vinde comigo, e quando eu disser a senha, fazei o que x 
combinamos. Vinde! Vinde! Defagar!
     (Saem.)

      
Cena V
      
Outro trecho do parque. Entra Falstaff, disfarado de Herne, com chifres de veado na cabea.
      
     FALSTAFF - O sino de Windsor j bateu doze pancadas; aproxima-se o momento. Agora, que me assistam os deuses do sangue quente. No te esqueas, Jove, de que 
te transformaste em touro por causa de tua Europa; o amor te fez nascer cornos na testa.  amor todo-poderoso, que algumas vezes fazes de um animal um homem, e outras 
de um homem um animal! Foste tambm cisne,  Jpiter, por amor de Leda. Oh onipotente amor! Como esteve perto o deus de parecer-se com um ganso! Tua primeira falta 
te transformou em animal.  Jove! uma falta animalesca; e a segunda te mudou em ave de galinheiro. No te esqueas, Jove! Uma falta galinesca. Quando os deuses tm 
o dorso quente, que podem fazer os pobres homens? Por mim, vejo-me agora como um veado de Windsor, o mais gordo, quero crer, de toda a floresta. Faze que seja temperada 
a minha poca de cio,  Jove! Do contrrio, quem me poder censurar, por vir a perder toda a gordura? Quem vem ai?  minha cora?
     (Entra a senhora Ford e a senhora Page.)
     SENHORA FORD - Sir John, ests a, meu gamozinho, meu querido animalzinho?
     FALSTAFF - Minha cora de rabo preto! Que o cu chova batatas! Que troveje na toada da cano "As mangas verdes" e que como neve caiam confeitos de bolo de 
nozes. Que venha uma tempestade de provocaes... (Abraando-a.)... que eu j tenho onde abrigar-me.
     SENHORA FORD - A senhora Page veio comigo, meu corao.
     FALSTAFF - Dividi-me como a um veado de presente, ficando cada uma com uma das coxas. Meus lados ficaro para mim mesmo; as espduas, para o guarda do parque, 
que os cornos eu legarei para vossos maridos. No estou parecendo um couteiro? No falo como o caador Herne? Desta vez Cupido se revelou um menino consciencioso; 
fez-me uma restituio. To certo como eu ser um esprito. Salve! Salve!
     (Ouve-se barulho dentro.)
     SENHORA PAGE - Oh cus! Que barulho  esse?
     SENHORA FORD - O cu perdoe nossos pecados!
     FALSTAFF - Que poder ser isso?
     SENHORA FORD e SENHORA PAGE - Vamos embora! Vamos embora!
     (Saem correndo.)
     FALSTAFF - Pelo que vejo, o diabo no me quer ver condenado s penas eternas, de medo que o azeite que se contm em meu corpo venha a incendiar o inferno; a 
no ser isso, no se atravessaria tantas vezes em meu caminho.
     (Entram o reverendo Hugo Evans, disfarado de stiro; Pistola, como duende; Ana Page, como rainha das fadas, seguida do irmo e de outras pessoas, disfaradas 
de fadas, com tochas de cera na cabea.)
     ANA - Fadas verdes e brancas, matizadas, que aqui brincais nas noites enluaradas, herdeiras e rfs do fatal destino, alegres acorrei! Entoemos o hino dos duendes 
e das fadas. Alegria!
     PISTOLA - Ateno, elfos! Cesse a correria dos espritos areos! Grifo, salta para as chamins de Windsor, onde uma alta lide vais ter, que a cinza ainda est 
quente e, por varrer, os lares. Complacente no sejas com as zagalas; belisces em todas d, de produzir verges azuis como o mirtilo. Nossa rainha no suporta imundcie 
to daninha.
     FALSTAFF - So fadas. Se eu falar com algumas delas, sou homem morto. Assim, sem mais aquelas, vou me deitar e tapar bem o rosto. Homem nenhum em v-las acha 
gosto.
     EVANS - Vai, Bode; e onde encontrares rapariga que as oraes trs vezes sempre diga antes de se deitar, com alegria, estimula-lhe a bela fantasia, porque ela, 
como criana na aparncia, possa dormir o sono da inocncia. Mas se achares alguma descuidada que ao se deitar no tenha dito nada, belisca-lhe  vontade o corpo 
lasso, pescoo, braos, pernas e o espinhao.
     ANA - Trasguinhos, comeai! Todo o castelo de Windsor varejai; sorte espalhai a flux, alegremente, porque possa durar eternamente, sem decair jamais em abandono, 
como convm ao seu mui digno dono. Seiva esfregai em todas as cadeiras, das plantas mais preciosas e fagueiras; abenoados se tornem sempre mais seus leais brases 
e as cotas imortais, e como a jarreteira, elfos,  roda, em crculo cantai a noite toda. Que a vossos passos tornem-se virentes e mais frteis os prados adjacentes. 
"Honny soit qui mal y pense"  volta escrevei dos canteiros em recolta, em tufos brancos, rubros e azulados, como pedras preciosas nos bordados, que aos joelhos 
curvos da cavalaria conferem elegncia e altanaria. Com flores escrevei, pois, em porfia. Vamos, principiai! Antes de uma hora, como de hbito, vinde sem demora 
danar em torno do carvalho de Herne.
     EVANS - Que cada um com o vizinho o passo alterne. Em ordem. Mos com mos. Vinte luzentes pirilampos levai como pingentes, porque vos possam dirigir o passo 
sem vos perderdes nada em pouco espao. Mas vejo um ser do mundo intermedirio!
     FALSTAFF - O cu me defenda desse duende galense, para que ele no me transforme num pedao de queijo.
     PISTOLA - De nascimento,  verme, s ordinrio!
     ANA - A chama quente lhe encostas no dedo. Sendo ele casto, no mostrar medo, pois no se queimar. Mas se gritar,  que  carne corrupta e mui vulgar.
     PISTOLA - Eia, a postos!
     EVANS - Faamos a experincia.
     (Queimam Falstaff com os archotes.)
     FALSTAFF - Oh! Oh! Oh!
     ANA - Corrupto, Corrupto!  s concupiscncia! Cantai-lhe fadas, algo zombeteiro e, ao danardes, picai-o o tempo inteiro. (CANO:) Fora a doente fantasia, 
a incontinncia, a fobia! Loucura  fogo abrasante que o sangue deixa escaldante. Brota do corao em alta chama, que o pensamento mais e mais inflama. Beliscai-o 
com vontade, por sua muita ruindade. Beliscai-o, queimai-o, at que a lua se esconda e a noite seu rondar conclua.
     (Durante a cano, as fadas beliscam Falstaff; o doutor Caius entra por um lado e rouba uma fada de vestido verde; Slender, por outro, leva uma fada de branco; 
depois entra Fenton e sai com Ana Page. Ouve-se barulho de caada; as fadas saem a correr; Falstaff arranca da cabea os chifres e se levanta. Entram Page, Ford, 
a senhora Page e a senhora Ford, que seguram Falstaff)
     PAGE - No procureis fugir, pois  certeza vos termos alcanado. Ento, para isso s Herne, o caador, vos serviria?
     SENHORA PAGE - No levemos adiante a brincadeira, por obsquio. Que tal achais, bondoso cavaleiro, as comadres de Windsor? Caro marido, estes apndices no 
ficam melhor na mata do que na cidade?
     FORD - Ento, senhor, quem ficou agora com chifres? Mestre Fontes, Falstaff  um velhaco, um velhaco de chifres. Aqui esto os chifres dele, mestre Fontes. 
E, mestre Fontes, do que era de Ford s se aproveitou do cesto de roupa suja, do basto e de vinte libras em dinheiro, que devero ser restitudas, mestre Fontes; 
para isso, os cavalos dele j esto detidos, mestre Fontes.
     SENHORA FORD - Sir John, no tivemos sorte; nunca podemos encontrar-nos. Doravante, no vos terei nunca mais como amante, mas como meu querido animalzinho.
     FALSTAFF - Comeo a compreender que fui transformado em asno.
     FORD - Sim, e tambm em touro; as duas provas esto patentes.
     FALSTAFF - E essas a, no so fadas? Por trs ou quatro vezes quis parecer-me que o no eram; mas a culpabilidade de minha conscincia e a paralisao sbita 
do meu raciocnio tornaram crvel um embuste grosseiro, a despeito de toda rima e razo, como se se tratasse de fadas de verdade. Vede como um homem inteligente 
pode transformar-se num joo-bobo, quando no sabe valer-se de seus recursos naturais.
     EVANS - Sir John Falstaff, servi a Deus e apandonai vossos abetites, que as fadas no vos peliscarro.
     FORD - Muito bem, duende Hugo.
     EVANS - E vs, deixai tampm vossos ximes,  o que vos peo.
     FORD - No voltarei a desconfiar de minha mulher, enquanto no ficardes capaz de fazer-lhe a corte em ingls correto.
     FALSTAFF - Terei, porventura, deixado o crebro exposto ao sol e a secar, para no poder livrar-me de uma armadilha to grosseira? Fui cavalgado at por um 
bode galense? S me resta afogar-me num pedao de queijo frito.
     EVANS - O queixo no se d bem com a manteica, e a vossa bana  bura manteica.
     FALSTAFF - "Queixo" e "manteica"! Ter vivido tanto, para ser objeto da zombaria de um sujeito que estropia dessa maneira o ingls? Isso  mais do que suficiente 
para produzir a runa da libertinagem e dos noctvagos de todo o reino.
     SENHORA PAGE - Ento, sir John, acreditveis mesmo que se ns tivssemos expulsado do corao toda a nossa virtude, jogando-a pelos ombros e pela cabea, e 
nos tivssemos entregue sem escrpulos ao inferno, acreditais que o diabo tivesse feito de vs nossas delcias?
     FORD - Um pudim desse tamanho? Um saco de l?
     SENHORA PAGE - Um sujeito estufado.
     PAGE - Velho, frio, enrugado e de entranhas intolerveis?
     FORD - E to aleivoso como Sat?
     PAGE - E pobre como J?
     FORD - E to ruim como sua mulher?
     EVANS - E dado aos brazeres sensuais, s tapernas, ao xerez, ao vinho, ao hidromel, s pepidas, s xuras e s prigas?
     FALSTAFF - Seja; estou na berlinda; tendes vantagens sobre mim. Confesso-me batido. No me sinto capaz de responder  flanela galense. A prpria ignorncia 
est sobre mim como peso de prumo. Usai-me como bem vos aprouver.
     FORD - Agora, senhor, vamos levar-vos a Windsor,  casa de um tal mestre Fontes, de quem extorquistes dinheiro e para quem deveis servir de terceiro. No meio 
de todas as vossas aflies, a mais dolorosa, me parece, vai ser restituir essa quantia.
     SENHORA FORD - Perdoa-lhe, marido, esse dinheiro, porque amigo nos seja verdadeiro.
     FORD - Pois no; eis minha mo; perdo a dvida.
     PAGE - Agora, cavaleiro, ficai alegre; esta noite bebers em minha casa, onde poders rir de minha mulher, que neste momento est rindo de ti. Dize-lhe que 
mestre Slender se casou com a filha dela.
     SENHORA PAGE ( parte) - Os doutores tm dvidas a esse respeito. Se Ana Page  minha filha, a estas horas ela  mulher do doutor Caius.
     (Entra Slender.)
     SLENDER - Ol! Oh! Pai Page!
     PAGE - Filho, ento? Ento, filho? Arranjaste tudo?
     SLENDER - Se arranjei? Vou contar o que houve a toda a gente de Glostershire. Preferira que me houvessem enforcado, pronto!
     PAGE - Que aconteceu, filho?
     SLENDER - Cheguei l em baixo, em Eton, para casar-me com a senhorita Ana Page e ela era um labrego deste tamanho. Se no fosse estarmos na igreja, eu o teria 
sovado, ou ele a mim. Quero ficar sem poder arredar-me daqui, se eu no pensava que era mesmo Ana Page. Era o filho do postilho.
     PAGE - Por minha vida, ento te equivocaste.
     SLENDER - E que necessidade h de me dizerdes isso agora?  claro que houve equvoco, quando tomei um rapaz por uma rapariga. Se eu o tivesse desposado, com 
toda a sua roupa de mulher, no teria querido saber dele.
     PAGE - Ora, a culpa  de vossa prpria tolice. Eu no vos tinha dito que devereis identificar minha filha pelo vestido?
     SLENDER - Cheguei-me para a que estava de branco e disse-lhe: "Zs!" e ela me respondeu: "Trs!" como eu e Ana havamos combinado. No entanto, no era Ana, 
mas o filho do postilho.
     EVANS - Jexus, mestre Slender, no tendes olhos, para casardes com um rapaz?
     SENHORA PAGE - Bondoso Jorge, no vos encolerizeis. Eu sabia de vossos projetos e fiz minha filha vestir-se de verde. A estas horas ela est com o doutor em 
casa do deo, onde se casaram.
     (Entra o doutor Caius.)
     CAIUS - Onde est a senhora Page? Pardieu! Fui enganado, vol! Desposei un garon, um rapaz. No era Ana Page, Pardieu. Fui enganado.
     SENHORA PAGE - Como! No pegastes a que estava vestida de verde?
     CAIUS - Sim, Pardieu! E era un garon, Pardieu! Vou revirar toda Windsor! (Sai.)
     FORD -  muito estranho. Quem ter ficado com a verdadeira Ana?
     PAGE - Tenho um pressentimento... A vem vindo mestre Fenton. (Entram Fenton e Ana Page.) Ento, mestre Fenton?
     ANA - Perdo, bondoso pai! Bondosa me, perdo!
     PAGE - Ento, senhorita, que se deu, para no teres sado com mestre Slender?
     SENHORA PAGE - Por que no saste com o mestre doutor, menina?
     FENTON - Vs a deixais surpresa. Ouvi o que houve. Quereis despos-la por maneira por demais vergonhosa, pois faltava de todo em todo a inclinao recproca. 
Mas o certo  que eu e ela h muito tempo ramos noivos e ora nos achamos unidos por maneira indissolvel. Sua desobedincia de hoje  em tudo santificada e o ardil 
o nome perde de astcia, de revolta ou desrespeito, pois evitadas ficam, desse modo, milhares de horas mpias e malditas, que lhe traria o casamento  fora.
     FORD - No vos zangueis, que  fato consumado. Os caprichos do amor do cu dependem. Com dinheiro podemos comprar terra; mas vende a esposa o fado que no erra.
     FALSTAFF - Alegra-me verificar que vossa flecha tenha ultrapassado o alvo, apesar do empenho em que estveis de atingir-me.
     PAGE - Agora, que remdio! Fenton, viva! Devemos aceitar o que  impossvel deixar de acontecer.
     FALSTAFF - A caa  grande quando os ces fazem cerco a noite toda.
     SENHORA PAGE - No pensemos mais nisso. Mestre Fenton, o cu vos d muitos e muitos dias s de felicidades. Caro esposo, voltemos para casa, porque ao fogo 
possamos rir de toda a brincadeira, sir John, como os outros.
     FORD - Sir John, assim cumpristes a promessa feita a Fontes: a noite ele, realmente, com a senhora Ford h de passar contente.
     (Saem.)

      
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